Estudo indica que braços mais externos da Via Láctea estão mais distantes do que se pensava

Estudo indica que braços mais externos da Via Láctea estão mais distantes do que se pensava

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Publicado em 02/07/26 às 17:05

Pesquisadores usaram explosões cósmicas em galáxias distantes para recalcular a posição dos braços mais externos da Via Láctea e concluíram que essas estruturas estão mais longe da Terra do que se estimava até agora. O resultado, publicado na revista científica Astronomy & Astrophysics, refina o mapa da nossa galáxia e ajuda a reduzir incertezas sobre sua dimensão e arquitetura.

Medir o tamanho e a estrutura da Via Láctea sempre foi um desafio para a astronomia por uma razão simples: a humanidade está dentro dela. Sem uma imagem completa “de fora”, os cientistas dependem de observações indiretas e de diferentes métodos para reconstruir a forma da galáxia. Nos últimos anos, a missão Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), produziu o mapa mais detalhado já feito da Via Láctea e confirmou, por exemplo, que ela possui quatro braços espirais — e não dois, como se pensava em modelos mais antigos. Ainda assim, a distância exata dos braços mais externos permanecia cercada de incertezas.

Agora, uma equipe internacional recorreu a um caminho incomum para enfrentar o problema: observar o rastro deixado por explosões de raios gama, os eventos mais energéticos do Universo. Essas explosões, associadas ao colapso de estrelas massivas e a supernovas, não ocorreram na Via Láctea, mas em galáxias muito mais distantes. Ainda assim, sua luz em raios X atravessou a nossa galáxia e interagiu com nuvens de poeira presentes em seus braços espirais.

Com dados obtidos pelos observatórios espaciais XMM-Newton, da ESA, e Chandra, da Nasa, os pesquisadores identificaram anéis concêntricos de emissão espalhada. Esses anéis funcionam como ecos em raios X: quando a radiação das explosões encontra grãos de poeira no caminho, parte da luz é desviada e registrada pelos telescópios em padrões circulares. Ao medir esses ecos, foi possível calcular de forma mais direta a distância até os braços externos da galáxia.

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O estudo confirmou a separação entre o braço onde está o Sistema Solar, o braço de Órion, e o braço de Perseu, o seguinte em direção às regiões externas da Via Láctea. As observações também permitiram medir a posição de dois braços ainda mais distantes do centro galáctico: o Braço Externo e o Braço Externo de Scutum-Centaurus.

Segundo a análise, ambos estão até 10% mais distantes da Terra do que apontavam estimativas anteriores. O braço Externo de Scutum-Centaurus, por exemplo, foi localizado a cerca de 62 mil anos-luz da Terra.

galáxia

A autora principal do estudo, Beatrice Vaia, do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália (INAF), afirma que os modelos tradicionais da Via Láctea costumam estimar a posição dos braços externos de maneira indireta, com base no movimento de rotação da galáxia. Embora eficaz, esse método abre margem para erros.

Nós normalmente modelamos os braços externos da Via Láctea de forma indireta, com base no que sabemos sobre a rotação da galáxia, mas esse método deixa espaço para incertezas, afirmou a pesquisadora em comunicado divulgado pela ESA.

Desta vez, fizemos algo novo: observamos o rastro de três explosões cósmicas ocorridas em galáxias muito distantes. Essas explosões emitiram raios X que ecoaram por vários braços externos da Via Láctea — e medimos diretamente a distância desses ecos.

O resultado reforça a importância de missões espaciais veteranas para a produção de conhecimento astronômico. Lançado em 1999, o XMM-Newton continua sendo uma das principais ferramentas para observar o Universo em altas energias. Ao lado do Chandra, ele já ajudou a desvendar fenômenos como buracos negros, explosões estelares e o comportamento de objetos extremos. Agora, mostra também utilidade para mapear a própria galáxia onde a Terra está inserida.

Para Erik Kuulkers, cientista do projeto XMM-Newton na ESA, o trabalho ilustra o papel duradouro dessas missões.

Essa descoberta é um grande exemplo de como missões mais antigas da ESA, como o XMM-Newton, ainda têm um papel extremamente importante na exploração do Universo, afirmou.

Além de revisar as distâncias dos braços espirais, a pesquisa pode ter implicações para estudos sobre a distribuição de gás, poeira e regiões de formação estelar na periferia da Via Láctea. Com medições mais precisas, astrônomos conseguem aprimorar os modelos sobre a evolução da galáxia e entender melhor sua dinâmica em escalas amplas.

A nova estimativa não muda apenas um número em tabelas astronômicas. Ela ajuda a redesenhar os contornos da casa cósmica da humanidade — uma estrutura cuja forma exata ainda está sendo montada peça por peça, a partir de observações feitas tanto dentro quanto fora dela.

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