
Estrela que passou perto do Sistema Solar há 2,5 milhões de anos pode explicar aumento de novos cometas, diz estudo
Por Sandro Felix
Publicado em 27/06/26 às 16:34
Uma estrela que cruzou a vizinhança do Sistema Solar há cerca de 2,5 milhões de anos pode ter alterado a trajetória de milhares de cometas e ainda influenciar fenômenos observados atualmente, segundo pesquisadores que analisaram dados da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA).
O objeto, identificado como HD 7977, teria passado entre 6 mil e 10 mil unidades astronômicas (UA) do Sol — distância equivalente a aproximadamente 35 a 58 dias-luz. Em escala cósmica, trata-se de uma aproximação considerada significativa, suficiente para exercer influência gravitacional sobre a Nuvem de Oort, região que abriga bilhões de corpos gelados na periferia do Sistema Solar.
Estudos anteriores baseados nas medições do observatório Gaia já indicavam que a estrela poderia ter se aproximado entre 4 mil e 25 mil UA do Sol. Agora, uma nova análise sugere uma faixa ainda mais estreita, reforçando a hipótese de que essa passagem desencadeou uma “chuva” de novos cometas em direção ao interior do Sistema Solar.
Os pesquisadores concentraram a investigação nos chamados cometas de longo período, corpos celestes que levam milhões de anos para completar uma órbita ao redor do Sol e que, em muitos casos, fazem sua primeira passagem pelas regiões internas do Sistema Solar. Em condições normais, esses objetos têm suas trajetórias alteradas principalmente pela influência gravitacional da Via Láctea. No entanto, uma estrela que passe relativamente perto pode provocar perturbações suficientes para enviá-los em direção aos planetas.
Segundo Nathan Kaib, cientista sênior do Planetary Science Institute e um dos autores do estudo, a distribuição das órbitas observadas atualmente sugere que a influência da HD 7977 pode ter superado, temporariamente, o efeito gravitacional exercido pela própria galáxia.
Para o pesquisador, isso indicaria que a Terra estaria vivendo os estágios finais de um evento raro de intensa produção de novos cometas, iniciado pela passagem da estrela há milhões de anos.
Apesar dos indícios, a hipótese ainda enfrenta desafios. Kaib e o pesquisador Sean Raymond, da Universidade de Bordeaux, realizaram simulações para reproduzir o impacto da aproximação estelar sobre a população de cometas. Embora os modelos confirmem que uma passagem desse tipo poderia provocar uma perturbação significativa, a distribuição das órbitas simuladas não correspondeu plenamente à observada pelos astrônomos.
A discrepância sugere que os modelos atuais talvez não considerem todos os processos físicos envolvidos. Entre as possibilidades levantadas pelos autores está um papel mais importante dos jatos de gás liberados pelos próprios cometas, capazes de alterar suas trajetórias ao longo do tempo. Também não está descartada a combinação de diferentes fatores ainda pouco compreendidos.
Os cientistas afirmam que a resposta pode surgir em breve. Novas medições da missão Gaia, que continua refinando o mapa tridimensional da Via Láctea e o movimento das estrelas, deverão permitir uma reconstrução mais precisa da trajetória da HD 7977 nos próximos meses.
Se as novas observações confirmarem as previsões da equipe, a hipótese de que uma estrela visitante deixou marcas duradouras na dinâmica do Sistema Solar ganhará força. Caso contrário, os pesquisadores terão de buscar novas explicações para a origem da atual população de cometas de longo período.



