Cientistas confirmam atmosfera em planeta potencialmente habitável a 49 anos-luz da Terra

Cientistas confirmam atmosfera em planeta potencialmente habitável a 49 anos-luz da Terra

Data

Publicado em 18/07/26 às 16:23

Astrônomos detectaram uma atmosfera ao redor de um planeta rochoso localizado a cerca de 49 anos-luz da Terra, em uma descoberta que reforça a possibilidade de que mundos potencialmente habitáveis consigam preservar envoltórios gasosos por longos períodos.

O planeta, chamado LHS 1140b, está situado na chamada zona habitável de sua estrela —região na qual as temperaturas podem, em determinadas condições, permitir a existência de água líquida. A descoberta não representa evidência de vida, mas acrescenta uma característica considerada importante na busca por ambientes capazes de reunir condições favoráveis à habitabilidade.

Os resultados foram publicados na revista científica Science em 16 de julho. Segundo os pesquisadores, as observações representam a evidência mais clara até agora da presença de uma atmosfera em um planeta rochoso considerado potencialmente adequado à vida.

LHS-1140bReprodução artística do LHS 1140b

Descoberto em 2017, LHS 1140b tem tamanho e massa superiores aos da Terra e temperaturas mais baixas. Ele completa uma volta ao redor de sua estrela a cada 25 dias terrestres.

Essa estrela é uma anã vermelha, classe de astros menores e mais frios que o Sol e também a mais comum na Via Láctea. A relativa tranquilidade da estrela de LHS 1140b é considerada um fator importante para a preservação de sua atmosfera.

Muitas anãs vermelhas apresentam intensa atividade magnética e podem produzir erupções capazes de bombardear planetas próximos com radiação e partículas energéticas. Ao longo de bilhões de anos, esse processo pode contribuir para a perda de atmosferas. No caso de LHS 1140b, porém, a estrela parece ser menos ativa do que outras do mesmo tipo, aumentando as chances de o planeta ter mantido gases ao seu redor.

LHS 1140b também apresenta uma diferença fundamental em relação à Terra: ele está gravitacionalmente travado à sua estrela. Isso significa que o mesmo lado do planeta permanece constantemente voltado para o astro, enquanto o hemisfério oposto fica em escuridão permanente.

Na prática, o planeta não possui uma alternância regular entre dia e noite como ocorre na Terra. Essa configuração pode produzir grandes diferenças de temperatura entre os dois hemisférios e torna a presença de uma atmosfera particularmente relevante, já que gases atmosféricos podem influenciar a distribuição de calor pelo planeta.

Hélio fornece evidência da presença de atmosfera

A principal evidência surgiu a partir de observações realizadas com dados obtidos no Observatório Las Campanas, no Chile. Em 2024, pesquisadores identificaram sinais de hélio escapando das regiões superiores da atmosfera de LHS 1140b.

A detecção desse gás forneceu uma indicação direta de que o planeta possui uma atmosfera rica em hélio, característica que já havia sido considerada possível em modelos teóricos.

Detectar atmosferas em exoplanetas rochosos é um dos principais desafios da astronomia contemporânea. Em planetas gigantes, formados predominantemente por gases, as assinaturas atmosféricas costumam ser mais fáceis de observar. Mundos rochosos, por outro lado, são menores e produzem sinais muito mais discretos.

Por isso, a identificação de uma atmosfera em LHS 1140b é considerada relevante não apenas para o estudo desse planeta, mas também para a compreensão de como mundos rochosos evoluem fora do Sistema Solar.

Collin Cherubim, cientista planetário da Universidade Harvard e integrante da pesquisa, afirmou que LHS 1140b parece reunir condições essenciais associadas à habitabilidade. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que nenhuma bioassinatura —um sinal químico potencialmente relacionado à atividade de organismos— foi identificada.

Outro aspecto que chamou a atenção dos cientistas foi uma mudança observada posteriormente. Em novas observações realizadas em 2025, o sinal de hélio escapando do planeta não voltou a ser detectado.

A diferença entre as observações pode indicar que a atmosfera de LHS 1140b varia ao longo do tempo. Segundo os pesquisadores, trata-se da primeira evidência desse tipo de mudança atmosférica observada em um exoplaneta rochoso.

Ainda será necessário determinar o que provocou a variação. Mudanças na atividade da estrela, na interação entre a radiação estelar e a atmosfera ou em outros processos físicos podem influenciar a quantidade de gás detectável em diferentes momentos.

LHS-1140b

Apesar de frequentemente ser incluído entre os mundos considerados semelhantes à Terra em alguns aspectos, LHS 1140b apresenta diferenças substanciais em relação ao nosso planeta.

Além de ser maior e mais massivo, seu ano dura apenas 25 dias terrestres. O planeta não possui um ciclo convencional de dias e noites e sua atmosfera seria dominada por hélio, enquanto a atmosfera terrestre é composta principalmente por nitrogênio e oxigênio.

A presença de um planeta na zona habitável também não significa, por si só, que exista água líquida em sua superfície. Para isso, fatores como pressão atmosférica, composição química, temperatura e circulação de calor precisam apresentar condições adequadas.

Da mesma forma, a existência de uma atmosfera não significa que o planeta seja habitado. Ela representa, porém, uma peça importante para que cientistas possam avaliar com maior precisão as condições ambientais de mundos distantes.

O caso de LHS 1140b ganha relevância adicional porque anãs vermelhas representam a maior parte das estrelas da Via Láctea. Se planetas rochosos próximos a essas estrelas forem capazes de preservar atmosferas durante bilhões de anos, o número de ambientes potencialmente habitáveis na galáxia pode ser maior do que seria esperado caso essas atmosferas fossem sistematicamente destruídas pela atividade estelar.

Os pesquisadores esperam que futuras observações permitam investigar com mais detalhes a composição e o comportamento da atmosfera de LHS 1140b, além de buscar moléculas que possam ajudar a esclarecer as condições existentes no planeta.

Embora não haja evidência de vida, a confirmação de uma atmosfera transforma LHS 1140b em um alvo particularmente importante para estudos futuros. A análise desse mundo poderá ajudar astrônomos a responder a uma questão central na busca por planetas semelhantes à Terra: até que ponto mundos rochosos fora do Sistema Solar conseguem conservar atmosferas estáveis e criar ambientes onde água líquida —e, eventualmente, processos biológicos— possam existir.

Deixe seu comentário

Deixe um comentário