
Ubisoft admite excesso de ambição em Assassin’s Creed Unity mais de uma década após lançamento
Por Sandro Felix
Publicado em 12/07/26 às 07:24
Assassin’s Creed Unity poderia ter sido um dos jogos mais marcantes da franquia da Ubisoft, mas sua estreia problemática em 2014 acabou transformando o título em símbolo de lançamentos tecnicamente desastrosos. Agora, mais de dez anos depois, uma das principais lideranças do projeto reconheceu que o estúdio tentou fazer coisas demais ao mesmo tempo.
Jean Guesdon, veterano da Ubisoft que liderou o desenvolvimento de Unity, comentou os desafios enfrentados pela equipe durante uma entrevista à revista Retro Gamer. Segundo ele, a produção foi afetada pela enorme quantidade de avanços tecnológicos e recursos que o estúdio decidiu implementar de uma só vez.
Na época, Assassin’s Creed Unity representava a entrada definitiva da série em uma nova geração de consoles. O jogo abandonou as limitações dos equipamentos anteriores e apostou em uma Paris mais densa, grandes multidões, edifícios com interiores exploráveis e um novo sistema de parkour.
Além disso, a Ubisoft adicionou um componente cooperativo integrado, com missões para até quatro jogadores. Tudo isso precisava funcionar enquanto a equipe também produzia uma enorme quantidade de conteúdo para o mundo aberto.
De acordo com Guesdon, essa combinação tornou o desenvolvimento especialmente complicado.
Avançar com conteúdo e tecnologia ao mesmo tempo é sempre muito exigente, e este jogo talvez tenha tentado fazer coisas demais de uma só vez, afirmou o veterano.
Assassin’s Creed Unity tentou avançar em várias áreas ao mesmo tempo
Para os padrões de 2014, Unity era um projeto extremamente ambicioso. A Ubisoft utilizou sua tecnologia para criar construções em escala mais próxima da realidade, ambientes internos detalhados e multidões muito maiores do que aquelas vistas nos capítulos anteriores da franquia.
Paris também foi construída para transmitir uma sensação constante de movimento. Centenas de personagens podiam ocupar as ruas durante protestos e outros acontecimentos ligados à Revolução Francesa.
O sistema de movimentação recebeu mudanças importantes. Arno Dorian ganhou novas animações e uma mecânica de parkour reformulada, incluindo comandos específicos para subir ou descer pelos cenários. A proposta era tornar a exploração mais fluida e dar ao jogador maior controle durante a movimentação pela cidade.
A furtividade também passou por alterações. Unity introduziu novas opções para abordar missões de assassinato e incentivou o jogador a analisar áreas antes de atacar. Algumas missões apresentavam oportunidades que podiam facilitar a infiltração ou abrir caminhos alternativos até um alvo.
O combate ficou mais difícil e reduziu a sensação de poder vista em alguns jogos anteriores. Enfrentar vários inimigos simultaneamente podia terminar rapidamente com a morte de Arno, tornando fugas e abordagens furtivas opções mais importantes.
Outra novidade foi o sistema de personalização. Diferentes peças de roupas e equipamentos permitiam modificar atributos do protagonista e adaptar Arno ao estilo preferido de cada jogador.
Somadas às missões cooperativas, atividades paralelas, itens colecionáveis, conteúdos adicionais e sistemas de monetização, todas essas novidades aumentaram consideravelmente a complexidade do projeto.
Problemas no lançamento transformaram Unity em meme
Apesar das promessas, Assassin’s Creed Unity chegou ao mercado com uma longa lista de falhas técnicas. Quedas de desempenho, erros de animação e problemas gráficos rapidamente dominaram as conversas sobre o jogo.
Um dos erros mais famosos fazia personagens aparecerem sem partes do rosto. Olhos, dentes e cabelos permaneciam visíveis enquanto outras áreas da cabeça simplesmente desapareciam.
As imagens viralizaram e Unity rapidamente virou alvo de piadas na internet. Para muitos jogadores, os problemas técnicos acabaram ofuscando as novidades apresentadas pela Ubisoft.
A situação ganhou tamanha proporção que a empresa precisou adotar medidas para compensar os consumidores. A expansão Dead Kings, inicialmente planejada como conteúdo pago, foi disponibilizada gratuitamente.
Mesmo com diversas atualizações lançadas posteriormente, a reputação do jogo já havia sido profundamente afetada.
Unity passou a ser reavaliado pelos fãs de Assassin’s Creed
Com o passar dos anos, Assassin’s Creed Unity começou a receber uma avaliação diferente entre parte da comunidade. Depois das correções, jogadores voltaram ao título e passaram a destacar elementos que haviam sido ignorados durante a crise do lançamento.
O parkour continua sendo apontado por muitos fãs como um dos sistemas de movimentação mais visualmente impressionantes da franquia. As animações de Arno e a possibilidade de controlar melhor as descidas pelos edifícios deram ao jogo uma identidade própria.
Paris também permanece entre os cenários mais detalhados produzidos para Assassin’s Creed. A quantidade de personagens nas ruas e a arquitetura da cidade criam uma atmosfera diferente daquela encontrada em títulos mais recentes.
As missões de assassinato são outro aspecto frequentemente lembrado. Unity oferecia áreas amplas e diferentes possibilidades de aproximação, permitindo que o jogador observasse o cenário e planejasse seus movimentos.
O cooperativo, embora não tenha se tornado padrão na série, também representou uma experiência incomum. Pela primeira vez, grupos de jogadores podiam assumir o papel de assassinos e completar determinadas missões juntos.
Na avaliação de Guesdon, Assassin’s Creed Unity é um dos jogos mais subestimados da franquia.
Caso de Unity lembra outros grandes lançamentos problemáticos
A história de Assassin’s Creed Unity acabou se tornando um exemplo de como uma estreia ruim pode acompanhar um jogo por muitos anos. Mesmo depois de atualizações, a primeira impressão permaneceu ligada ao título.
Outros jogos enfrentaram situações semelhantes posteriormente. Cyberpunk 2077 chegou ao mercado com problemas técnicos e recebeu uma série de correções e melhorias nos anos seguintes. No Man’s Sky também passou por uma transformação após uma estreia marcada por críticas.
Nos dois casos, os jogos conseguiram recuperar parte da confiança dos jogadores. Ainda assim, os problemas do lançamento continuam sendo mencionados sempre que suas trajetórias são discutidas.
Unity seguiu um caminho parecido, embora de forma menos planejada. O jogo não recebeu anos de grandes expansões para reconstruir sua experiência, mas as atualizações foram suficientes para revelar melhor as ideias presentes no projeto original.
Mais de uma década depois, a declaração de Jean Guesdon ajuda a explicar o que aconteceu nos bastidores. Assassin’s Creed Unity tentou reformular o parkour, ampliar a furtividade, tornar o combate mais exigente, criar multidões gigantescas, oferecer uma cidade detalhada e adicionar um modo cooperativo em um único jogo.
A Ubisoft conseguiu entregar boa parte dessas ideias. O problema é que, em 2014, elas chegaram acompanhadas por falhas técnicas que dominaram completamente a conversa.
Hoje, Unity continua carregando a fama de um lançamento desastroso, mas também ganhou espaço entre jogadores que consideram o título uma das experiências mais ambiciosas de Assassin’s Creed.


