
Id Software perde metade da equipe em rodada de demissões promovida pela divisão de games da Microsoft
Por Sandro Felix
Publicado em 07/07/26 às 16:47
A onda de demissões promovida pela divisão de games da Microsoft voltou a atingir um dos nomes mais tradicionais da indústria. A Id Software, estúdio responsável por franquias fundamentais para a consolidação do gênero de tiro em primeira pessoa, teria dispensado cerca de metade de seus funcionários em meio ao corte de aproximadamente 3,2 mil postos de trabalho anunciado pela CEO do Xbox, Asha Sharma.
A redução no quadro da desenvolvedora aprofunda um cenário já delicado para o setor de games, que vem acumulando reestruturações, cancelamentos e desligamentos em série desde 2023. Fundada no início dos anos 1990, a Id Software ajudou a moldar a linguagem dos jogos de tiro com séries como Doom, Quake, Wolfenstein e Rage, tornando-se uma das empresas mais influentes da história do entretenimento digital.
A dimensão do corte foi relatada publicamente por Michael Maynard, ex-programador sênior de sistemas de jogabilidade da Id, que trabalhou no estúdio por 21 anos. Em publicação na rede profissional LinkedIn, Maynard afirmou ter feito parte do grupo dispensado, que, segundo ele, representa “cerca de 50% da empresa”.
Sim, eu estava entre a equipe — aproximadamente 50% da companhia — que foi desligada hoje. Estive lá por mais de 20 anos, de RAGE até DOOM: Dark Ages. É triste, mas trabalho com videogames há mais de 40 anos, então não chega a ser uma surpresa. O mais triste é ver a Id Software, pioneira e inovadora dos jogos de ação em FPS, reduzida a apenas mais uma ‘reorganização’ de ativos, escreveu.
A declaração reforça a percepção de que o impacto dos cortes promovidos pela Microsoft vai além das cifras anunciadas oficialmente. Em 6 de julho, o Xbox confirmou a eliminação de milhares de vagas, em mais um movimento de ajuste interno após a expansão agressiva da empresa nos últimos anos, marcada por aquisições bilionárias e pela incorporação de grandes grupos editoriais. Desde então, estúdios ligados à ZeniMax, controladora da Bethesda e da própria Id Software, vêm sendo apontados como parte do processo de enxugamento.
Relatos recentes indicam que a ZeniMax deve concentrar recursos em suas propriedades intelectuais consideradas mais valiosas, numa estratégia de priorização das chamadas “grandes franquias”. Nesse contexto, a Id Software aparece como um caso emblemático: ao mesmo tempo em que continua associada a marcas históricas e comercialmente relevantes, vê seu quadro de funcionários ser drasticamente reduzido em meio a uma reorganização corporativa mais ampla.
Apesar do baque, projetos ligados ao universo da empresa não teriam sido interrompidos. Informações de bastidores apontam que Wolfenstein 3 segue em desenvolvimento, assim como uma adaptação televisiva da franquia Wolfenstein. A manutenção dessas produções sugere que, mesmo com a redução de pessoal, parte da operação continuará voltada à preservação de propriedades de alto apelo comercial.
O episódio lança nova luz sobre a situação da indústria global de games, que nos últimos anos passou de um ciclo de forte expansão — impulsionado pela pandemia e pelo aumento do consumo digital — para uma fase de contenção, revisão de investimentos e pressão por rentabilidade. Nesse ambiente, nem mesmo estúdios com peso histórico escapam da lógica de consolidação e corte de custos.
No caso da Id Software, o impacto simbólico é particularmente forte. O estúdio foi peça central na transformação do FPS em um dos gêneros mais populares do mercado, ajudando a estabelecer convenções de design, ritmo e tecnologia que se tornaram padrão para gerações de jogos. Ver uma empresa com esse legado perder metade de sua equipe reforça a dimensão da crise vivida por um setor que, embora siga movimentando cifras bilionárias, convive com crescente instabilidade nos bastidores.
Até o momento, a Microsoft e a Bethesda não detalharam oficialmente quantos funcionários da Id Software foram atingidos nem quais áreas foram mais afetadas. O silêncio institucional contrasta com a repercussão entre profissionais da indústria, que passaram a usar redes sociais para relatar desligamentos e lamentar o enfraquecimento de estúdios históricos.
Para os funcionários remanescentes, o cenário é de continuidade forçada. A produção segue, os cronogramas são mantidos e as grandes marcas permanecem no centro da estratégia corporativa, mesmo depois de uma reestruturação que atinge diretamente equipes responsáveis por décadas de inovação. Para a Id Software, referência incontornável quando se fala em jogos de tiro, o corte representa não apenas uma redução de pessoal, mas um novo capítulo de incerteza em sua trajetória.

