Por que quase não se ouve falar em câncer no coração

Por que quase não se ouve falar em câncer no coração

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Publicado em 26/02/26 às 16:59

Um debate aparentemente simples mobilizou milhares de usuários no Reddit nos últimos dias. Em uma publicação no fórum “No Stupid Questions” (“Sem perguntas idiotas”), um internauta questionou por que nunca ouviu falar em câncer no coração. “Se o câncer acontece onde há células no corpo, por que eu nunca vi algo como câncer no coração ou nos músculos?”, escreveu o usuário identificado como Exciting-Match-2151.

A dúvida, embora incomum, tem base científica. O câncer pode surgir em praticamente qualquer tecido do organismo, mas a frequência varia muito de acordo com o tipo de célula e sua capacidade de se dividir. E é justamente aí que está a explicação para a raridade dos tumores cardíacos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer é uma das principais causas de morte no mundo, responsável por quase 10 milhões de óbitos em 2020 — cerca de uma em cada seis mortes. Os tipos mais comuns são os de mama, pulmão, cólon e reto e próstata. Essas formas da doença, além de outras mais agressivas, como o câncer de pâncreas, costumam ser alvo constante de campanhas de conscientização, o que contribui para sua maior visibilidade pública.

Já o câncer primário do coração — aquele que se origina no próprio órgão — é extremamente raro. Estimativas indicam que tumores cardíacos primários afetam entre 0,0017% e 0,028% da população. Desses casos, apenas cerca de 25% são malignos, ou seja, cancerosos.

Durante toda a minha carreira, provavelmente vi cânceres malignos primários do coração duas ou três vezes, afirmou a cardiologista Tochukwu Okwuosa, diretora de cardio-oncologia do Rush University Medical Center, em Chicago.

Não são neoplasias muito comuns, e é por isso que a maioria das pessoas não fala sobre elas com frequência, acrescentou.

Além da raridade, há outro fator que contribui para a baixa incidência: a biologia das células cardíacas. Diferentemente de outros tecidos do corpo, como a pele ou o intestino, as células do coração praticamente não se dividem na vida adulta.

Julie Phillippi, professora associada de cirurgia cardiotorácica e bioengenharia da Universidade de Pittsburgh, explicou em artigo publicado no site The Conversation que as células do coração são “terminalmente diferenciadas” — isto é, atingem um estágio em que param de se multiplicar.

Embora o coração seja o primeiro órgão a se formar e começar a funcionar no desenvolvimento inicial, as células do coração adulto se dividem pouquíssimas vezes após o nascimento, com a divisão caindo drasticamente depois dos 20 anos, escreveu.

Na verdade, menos de 50% das células cardíacas são substituídas ao longo de uma vida humana média. Isso significa que metade das células com as quais você nasce ajudará a bombear sangue por toda a sua vida.

Como o câncer geralmente surge a partir de erros que ocorrem durante a divisão celular — quando o DNA é replicado —, quanto menos uma célula se divide, menores são as chances de mutações que levem à formação de tumores. Esse baixo índice de renovação celular funciona, na prática, como uma espécie de proteção natural contra o câncer.

Quando há tumores no coração, na maioria das vezes eles não se originam ali. São metástases, isto é, células cancerígenas que se espalharam de outros órgãos, como pulmões ou mamas. Nesses casos, o foco das campanhas e do tratamento costuma estar no câncer primário, já que a disseminação para o coração geralmente indica estágio avançado da doença e pior prognóstico.

Quando são malignos, são realmente malignos, infelizmente, afirmou Okwuosa.

Ninguém quer ouvir que o tumor no coração é um câncer maligno, porque as chances de cura são muito baixas e o risco de morte é muito alto, mesmo com quimioterapia.

Em resumo, o motivo pelo qual o câncer no coração raramente é tema de conversas ou campanhas não é sua inexistência, mas sua excepcional raridade. Embora possa ser grave e de difícil tratamento quando ocorre, trata-se de uma condição pouco frequente na população — o que explica por que muitos nunca ouviram falar dela.

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