
Peste de Atenas: estudo indica possíveis causas de uma das primeiras epidemias do mundo
Por Sandro Felix
Publicado em 05/05/26 às 08:00
Um novo estudo internacional reacendeu o debate sobre a origem de uma das epidemias mais devastadoras da Antiguidade: a chamada Peste de Atenas, que assolou a Grécia entre 430 e 426 a.C. e matou dezenas de milhares de pessoas. Descrita pelo historiador Tucídides em sua obra sobre a Guerra do Peloponeso, a doença permanece um mistério há cerca de 2.500 anos — mas pesquisadores agora apresentam uma lista mais consistente de possíveis causas.
De acordo com o relato clássico, os infectados sofriam sintomas severos como febre alta, erupções cutâneas, diarreia intensa, mau hálito, gangrena e até perda de memória. Em casos mais graves, os doentes deixavam de reconhecer familiares ou até de lembrar o próprio nome. A morte geralmente ocorria entre sete e nove dias após o início dos sintomas, frequentemente precedida por complicações intestinais.
A epidemia teria surgido na África Subsaariana, espalhando-se pelo norte do continente até alcançar o Mediterrâneo, chegando a Atenas pelo porto de Pireu. Entre as vítimas mais notáveis está o líder político e militar Péricles. O impacto foi tão profundo que, segundo historiadores, contribuiu para o enfraquecimento militar da cidade, facilitando sua derrota para Esparta.
Na tentativa de identificar o agente causador, cientistas compararam os sintomas descritos por Tucídides com os de 17 doenças conhecidas. Entre elas estão febre tifoide, sarampo, escarlatina e meningite meningocócica.
A febre tifoide aparece como a principal suspeita, compatível com nove dos 12 sintomas identificados nos registros históricos. Além disso, análises anteriores detectaram DNA da bactéria Salmonella Typhi em restos humanos encontrados no único cemitério associado à epidemia. Ainda assim, há um obstáculo importante: a doença não se transmite facilmente de pessoa para pessoa, o que contrasta com a rápida disseminação descrita na época.
Outras hipóteses incluem o sarampo e a meningite meningocócica, que atendem a oito dos critérios avaliados. Os pesquisadores também consideram a possibilidade de uma combinação de doenças circulando simultaneamente — como tifo associada à peste bubônica ou surtos de varíola combinados com cólera.
Uma hipótese mais especulativa sugere que o surto pode ter sido causado por um patógeno hoje extinto. Entre os candidatos está um vírus semelhante ao da Febre de Lassa, que poderia ter surgido na África e desaparecido após a população desenvolver imunidade coletiva.
Apesar dos avanços, os cientistas ressaltam que a ausência de análises moleculares detalhadas e de microrganismos preservados impede uma conclusão definitiva. Ainda assim, o novo estudo — publicado na revista científica Acta Medico-Historica Adriatica — representa um passo importante ao reunir, pela primeira vez, um conjunto estruturado de hipóteses para explicar a misteriosa epidemia.
Para especialistas, compreender a Peste de Atenas vai além de resolver um enigma histórico. O estudo também ajuda a iluminar como doenças emergem, se espalham e impactam sociedades — uma questão que permanece atual em tempos de novas crises sanitárias globais.

