Google Chrome instala secretamente um modelo de IA de 4 GB sem autorização dos usuários

Google Chrome instala secretamente um modelo de IA de 4 GB sem autorização dos usuários

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Publicado em 06/05/26 às 07:58

O Google Chrome passou a baixar silenciosamente um arquivo de aproximadamente 4 GB em computadores de usuários sem qualquer solicitação explícita de autorização. O arquivo, chamado “weights.bin”, contém os parâmetros do modelo de inteligência artificial Gemini Nano e está sendo armazenado automaticamente dentro da pasta “OptGuideOnDeviceModel”, localizada no perfil do navegador. O comportamento foi identificado pelo pesquisador de privacidade Alexander Hanff, conhecido nas redes como “The Privacy Guy”, que afirma que o navegador reinstala o arquivo mesmo após sua exclusão manual.

Segundo Hanff, o teste foi realizado em uma instalação limpa do Chrome 147 no macOS, sem qualquer interação do usuário. Em cerca de 14 minutos, os registros do sistema já mostravam a transferência completa do modelo para o disco rígido. O pesquisador afirma que o download ocorre em segundo plano assim que determinados recursos de inteligência artificial do navegador estão habilitados — o que acontece por padrão nas versões mais recentes do Chrome.

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Modelo de IA é instalado sem consentimento do usuário

O arquivo “weights.bin” serve como base para funcionalidades locais do navegador, incluindo sugestões automáticas de escrita, organização inteligente de abas, detecção de golpes e resumos de páginas. Embora o Google apresente essas ferramentas como recursos integrados de produtividade, especialistas em privacidade questionam a ausência de transparência sobre o tamanho do download e a instalação automática do modelo.

A controvérsia ganhou força após Hanff apontar uma aparente contradição no funcionamento do chamado “Modo IA”, exibido na barra de endereços do Chrome. O botão sugere ao usuário que determinadas consultas possam ser processadas localmente pelo Gemini Nano já instalado no computador. No entanto, segundo o pesquisador, as interações feitas por esse modo continuam sendo enviadas aos servidores do Google, enquanto o modelo baixado localmente é usado apenas em funções secundárias escondidas em menus internos do navegador.

Para críticos da prática, o problema não está apenas no armazenamento automático de um arquivo de grande porte, mas também na falta de consentimento claro. Hanff argumenta que muitos usuários sequer percebem a presença do modelo de IA ocupando espaço em disco ou consumindo banda de internet. Em conexões limitadas, os 4 GB transferidos podem representar praticamente toda a franquia mensal de dados.

Além da questão do consumo de armazenamento e internet, o pesquisador também levantou preocupações ambientais. Segundo seus cálculos, cada rodada de distribuição do Gemini Nano para a base global de usuários do Chrome pode gerar entre 6 mil e 60 mil toneladas de CO₂ equivalente, especialmente devido às sucessivas atualizações dos pesos do modelo.

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Debate jurídico e dificuldade para bloquear o download

Especialistas em proteção de dados apontam que a prática pode entrar em conflito com legislações de privacidade. Hanff cita dispositivos da Diretiva ePrivacy e do Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), que exigem transparência e consentimento antes do armazenamento de informações em dispositivos pessoais.

Até o momento, o Google não disponibilizou uma opção simples nas configurações do Chrome para impedir o download automático do Gemini Nano. Usuários mais avançados conseguem desativar parcialmente o recurso por meio da página experimental “chrome://flags”, onde é possível desligar funções ligadas ao “optimization guide on device” e à “Prompt API for Gemini Nano”. Após isso, ainda é necessário apagar manualmente o arquivo instalado no sistema.

Outra alternativa envolve a criação de políticas corporativas no Registro do Windows para bloquear permanentemente a instalação do modelo. Essa solução, porém, é considerada complexa para usuários comuns e geralmente utilizada apenas em ambientes empresariais.

Para Hanff, o procedimento ideal seria simples: o navegador deveria exibir uma janela clara informando que deseja baixar um modelo de IA de 4 GB, explicando sua finalidade e permitindo ao usuário escolher se aceita ou não a instalação. Até agora, o Google não comentou oficialmente as críticas relacionadas ao comportamento do Chrome 147.

O episódio reacende o debate sobre os limites da integração de inteligência artificial em softwares amplamente utilizados e sobre até que ponto empresas de tecnologia podem ativar recursos avançados sem autorização explícita dos usuários.

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