
Cientistas revelam espécie marinha que pode “rejuvenescer” sob condições extremas
Por Sandro Felix
Publicado em 11/11/24 às 16:13
Uma equipe de cientistas fez uma descoberta extraordinária no mundo marinho: uma espécie de invertebrado capaz de reverter seu processo de envelhecimento e retornar a um estágio juvenil. Em um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os pesquisadores revelaram que o ctenóforo Mnemiopsis leidyi – conhecido popularmente como comb jelly ou geléia-do-mar – possui a capacidade de “voltar no tempo” biológico, desafiando o ciclo de vida tradicional dos seres vivos.
O cientista Joan J. Soto-Angel, um dos autores do estudo e pesquisador na Universidade de Bergen, na Noruega, contou como o fenômeno foi descoberto. Em um dia de observação rotineira no laboratório, ele notou algo incomum: no tanque onde normalmente habitava um comb jelly adulto, apareceu uma versão larval. “Quando percebi que se tratava do mesmo animal que havia regredido, fiquei completamente surpreso,” relatou Soto-Angel. Esse evento curioso motivou sua equipe a investigar as condições específicas que poderiam desencadear esse “rejuvenescimento”.
Os pesquisadores então submeteram o comb jelly a diferentes níveis de estresse e descobriram que, em situações extremas, ele é capaz de reverter seu desenvolvimento até o estágio de larva. “O trabalho desafia nossa compreensão sobre o desenvolvimento animal e abre portas para novos estudos sobre a plasticidade dos ciclos de vida e a regeneração,” explicou Soto-Angel. Ele acrescenta que encontrar uma espécie com essa “máquina do tempo biológica” é algo que gera novas questões sobre como essa habilidade pode estar presente em outras formas de vida.

Ao longo de semanas de observação, os cientistas notaram que, além de mudar sua forma física, o comb jelly passou a adotar um comportamento alimentar típico das larvas, o que indica uma transformação completa, não apenas exterior, mas também comportamental.
Essa espécie ancestral pode ter surgido há aproximadamente 700 milhões de anos, o que a coloca entre os primeiros animais do planeta. Embora seja única, o comb jelly não é o único animal conhecido por desafiar o ciclo de vida convencional. A água-viva Turritopsis dohrnii, conhecida como “água-viva imortal”, também pode reverter seu desenvolvimento, sendo outro exemplo no “clube dos viajantes do tempo” da natureza.
Os cientistas acreditam que essa descoberta pode ter implicações profundas para a ciência, com potencial para esclarecer aspectos ainda desconhecidos sobre o envelhecimento e o desenvolvimento de outros animais, incluindo humanos. Paul Burkhardt, coautor do estudo, destaca a importância de investigar o mecanismo molecular por trás dessa reversão. “Essa descoberta abre um novo campo de pesquisa. Será fascinante entender o que ocorre na rede neural do comb jelly durante esse processo e como ele reorganiza suas células,” afirmou.
A descoberta pode ajudar a decifrar os mistérios do envelhecimento e da regeneração celular, inspirando novas pesquisas em biologia e medicina. Afinal, compreender como algumas espécies conseguem “rejuvenescer” pode, no futuro, abrir caminhos para tratar doenças relacionadas ao envelhecimento e até mesmo aprimorar o entendimento da biologia do desenvolvimento humano.
