
Brasil amplia infraestrutura de inteligência artificial enquanto gigantes da tecnologia aceleram construção de data centers pelo mundo
Por Sandro Felix
Publicado em 27/09/26 às 07:24
A corrida pela inteligência artificial está transformando a infraestrutura digital global, com investimentos bilionários em data centers, chips especializados e energia elétrica. No Brasil, novos projetos buscam ampliar a capacidade de processamento e reduzir a dependência de estruturas instaladas no exterior, enquanto Estados Unidos, China e países europeus disputam espaço na expansão dessa tecnologia.
A mudança vai muito além dos chatbots. Para treinar e operar modelos avançados de IA, empresas precisam de instalações capazes de abrigar milhares de processadores, sistemas de refrigeração e redes de alta velocidade. Quanto maior a demanda por serviços como ChatGPT, Gemini e Copilot, maior a necessidade de infraestrutura para sustentar essas operações.
O Brasil participa desse movimento com projetos concentrados principalmente nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste. A disponibilidade de energia renovável, a conectividade internacional e a possibilidade de atender empresas locais estão entre os fatores que atraem investimentos.
Brasil já ultrapassa 1 GW de infraestrutura de data centers
O mercado brasileiro atingiu 1 gigawatt (GW) de capacidade de TI comissionada no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da datacenterHawk divulgados pela Associação Brasileira de Data Center (ABDC). O indicador considera a capacidade de equipamentos de tecnologia já comissionada e não deve ser confundido com a potência total anunciada para empreendimentos ainda em construção.
Outro levantamento, realizado pela consultoria JLL e divulgado pela Exame em 16 de setembro, apontou 706 megawatts (MW) de capacidade instalada no primeiro semestre, com previsão de entrega de mais 134 MW até dezembro. As diferenças entre os números refletem metodologias e recortes distintos de acompanhamento do setor.
O crescimento ocorre em um mercado que já concentra aproximadamente 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina, conforme relatório publicado pelo GRI Institute em julho.
Entretanto, nem toda essa infraestrutura é dedicada à inteligência artificial. Parte dos equipamentos atende serviços tradicionais de nuvem, armazenamento, aplicações corporativas e plataformas digitais.
Ceará receberá data center do TikTok com investimento superior a R$ 200 bilhões
Um dos maiores empreendimentos anunciados no país está no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará. O TikTok confirmou um investimento estimado em mais de R$ 200 bilhões para instalar seu primeiro data center na América Latina, com início da operação previsto para 2027.
O projeto envolve a Omnia, operadora de data centers do grupo Pátria Investimentos, e a Casa dos Ventos, responsável pela parceria energética. Do investimento anunciado, R$ 108 bilhões estão previstos para equipamentos de alta tecnologia até 2035, enquanto o restante contempla expansões e atualizações ao longo dos anos seguintes.
A primeira etapa prevê aproximadamente 200 MW de capacidade de TI e demanda energética próxima de 300 MW. A expansão poderá levar o complexo a uma potência de até 900 MW, conforme informações divulgadas sobre o empreendimento.
A empresa afirma que a instalação utilizará energia renovável proveniente de novos parques eólicos dedicados ao projeto. O sistema de refrigeração terá circuito fechado, com recirculação de água e resfriamento por ar.
Embora a instalação represente uma expansão expressiva da infraestrutura digital brasileira, não se trata de uma confirmação de que toda sua capacidade será destinada ao treinamento de modelos de IA. O complexo foi anunciado para atender operações do TikTok.
Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro apostam em grandes complexos de IA
No Rio Grande do Sul, a Scala Data Centers desenvolve o projeto Scala AI City, em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
A primeira fase prevê investimento de R$ 3 bilhões e capacidade de 54 MW, com infraestrutura voltada ao processamento de inteligência artificial. O empreendimento foi concebido para permitir ampliações conforme a demanda e a viabilidade das próximas etapas.
Em maio de 2026, o projeto avançava na elaboração do plano de negócios e na preparação para o licenciamento, segundo informações divulgadas pela GaúchaZH. A proposta de longo prazo contempla a formação de uma cidade de data centers, mas as dimensões futuras dependem da concretização das expansões planejadas.
O Rio de Janeiro também participa dessa disputa com o Rio AI City, da Elea Data Centers, que combina infraestrutura existente com planos de ampliação voltados à computação de alto desempenho.
Em São Paulo, a concentração de clientes corporativos e de infraestrutura de conectividade continua atraindo operadores. A Scala mantém operações e projetos em Barueri, Campinas e Jundiaí, enquanto a Tecto, do grupo V.tal, anunciou um empreendimento de 200 MW em Santana de Parnaíba.
Estados Unidos concentram megaprojetos de IA
Fora do Brasil, os Estados Unidos continuam no centro da expansão das instalações destinadas aos modelos mais avançados de inteligência artificial.
O projeto Stargate, liderado pela OpenAI em parceria com outras empresas, tem como objetivo desenvolver uma ampla rede de infraestrutura computacional no país.
Em abril de 2026, a OpenAI informou que havia superado o marco de 10 GW de capacidade de infraestrutura assegurada, inicialmente estabelecido para 2029. Segundo a companhia, mais de 3 GW foram adicionados nos 90 dias anteriores ao anúncio.
O número representa compromissos de capacidade e não significa que toda essa potência já esteja em funcionamento.
Entre os locais associados à expansão estão Abilene, no Texas, e outros campi norte-americanos desenvolvidos por diferentes operadores.
Empresas como Microsoft, Google, Amazon e Meta também ampliam seus investimentos em instalações especializadas, combinando processadores de IA, redes de alta velocidade e sistemas elétricos de grande porte.
O avanço dessas estruturas acompanha a necessidade de executar modelos cada vez maiores e atender milhões de usuários simultaneamente.
China, Oriente Médio e Canadá ampliam a disputa por capacidade computacional
A expansão não está restrita ao território norte-americano.
Na China, o desenvolvimento de infraestrutura própria faz parte dos esforços para ampliar a capacidade nacional de computação e reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.
Os Emirados Árabes Unidos também investem em grandes complexos. Em Abu Dhabi, o Stargate UAE integra um projeto de infraestrutura de IA com capacidade planejada de 5 GW, envolvendo empresas como G42, OpenAI, Oracle, Nvidia e SoftBank.
O Canadá ganhou destaque em setembro com o anúncio de um empreendimento da Meta na província de Alberta, estimado em 13 bilhões de dólares canadenses.
Segundo a Reuters, a empresa de energia Capital Power fornecerá inicialmente 250 MW para o projeto, enquanto a infraestrutura independente de geração elétrica está prevista para entrar em operação em 2030. A província também reúne outras propostas de instalações de grande porte.
A disponibilidade de terrenos, energia e condições climáticas favoráveis ao resfriamento está entre os fatores considerados na escolha dessas regiões.
Europa prepara gigafábricas com mais de 100 mil processadores de IA
A União Europeia desenvolve uma estratégia própria para ampliar sua capacidade computacional. O programa AI Factories reúne supercomputadores, universidades, empresas e centros de pesquisa para apoiar o desenvolvimento de modelos avançados.
Atualmente, 19 fábricas de IA estão em implantação, distribuídas por países como Alemanha, França, Espanha, Itália, Finlândia, Polônia e Suécia.
A próxima etapa envolve instalações ainda maiores, chamadas AI Gigafactories. Cada empreendimento deverá reunir mais de 100 mil processadores avançados para treinamento e execução de modelos de última geração.
Em julho, a Comissão Europeia abriu uma chamada para estabelecer até sete gigafábricas, com expectativa de mobilizar mais de 30 bilhões de euros em investimentos públicos e privados.
O bloco também prepara novas exigências de transparência energética. Uma proposta apresentada em setembro prevê que data centers com capacidade a partir de 500 kW divulguem indicadores de eficiência no consumo de eletricidade e água.
Consumo de energia se torna um dos principais obstáculos da inteligência artificial
A velocidade de construção dos novos complexos começa a pressionar a infraestrutura elétrica mundial.
Segundo relatório publicado pela Agência Internacional de Energia (IEA) em abril de 2026, o consumo global de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025. Nas instalações especializadas em inteligência artificial, o aumento chegou a 50%.
A agência projeta que o consumo total dessas instalações passe de 485 terawatts-hora (TWh) em 2025 para aproximadamente 950 TWh em 2030, o equivalente a cerca de 3% da demanda mundial de eletricidade.
A pressão sobre a rede elétrica é acompanhada por dificuldades no fornecimento de transformadores, turbinas, chips avançados e memórias de alta largura de banda.
No Brasil, um estudo da Schneider Electric em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços aponta que a capacidade de data centers poderá atingir entre 26 GW e 45 GW até 2050, dependendo da expansão da infraestrutura energética. Trata-se de cenários de longo prazo, não de capacidade contratada ou garantida.
O consumo de água também entrou no centro das discussões. Embora tecnologias de refrigeração em circuito fechado reduzam a necessidade de reposição, os impactos variam conforme o clima, a tecnologia utilizada e as características de cada instalação.
A expansão dos data centers depende, portanto, não apenas de investimentos em servidores, mas também da capacidade de construir novas fontes de geração, ampliar linhas de transmissão e garantir o abastecimento sem comprometer outros consumidores.







