
Covid-19 pode reativar vírus “adormecidos” no organismo e agravar quadro clínico, aponta estudo
Por Sandro Felix
Publicado em 07/08/26 às 16:41
A infecção por Covid-19 pode desencadear a reativação de vírus que permanecem latentes no organismo humano e contribuir para o agravamento da doença, segundo um estudo internacional publicado na revista científica Nature. A pesquisa indica que mais da metade dos pacientes hospitalizados avaliados apresentou a reativação de pelo menos um vírus durante a infecção pelo coronavírus.
Os pesquisadores analisaram dados de mais de 1.100 pacientes internados em 20 hospitais dos Estados Unidos entre maio de 2020 e março de 2021, período anterior ao início da vacinação contra a Covid-19. A investigação foi liderada por cientistas da Universidade do Texas em Austin.
Embora muitas infecções virais sejam eliminadas pelo organismo após a recuperação, alguns vírus conseguem permanecer em estado de latência por décadas ou até por toda a vida. Estima-se que uma pessoa carregue entre oito e 12 vírus dormentes no corpo em um determinado momento, sem apresentar sintomas.
Entre os principais exemplos estão os herpesvírus, grupo que inclui o vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), responsável pelo herpes labial; o vírus varicela-zóster, causador da catapora e do herpes-zóster; o vírus Epstein-Barr, associado à mononucleose infecciosa e também relacionado ao desenvolvimento de esclerose múltipla; e o citomegalovírus, amplamente disseminado na população.
Esses vírus costumam permanecer inativos graças ao controle exercido pelo sistema imunológico, mas podem voltar à atividade diante de situações de estresse físico, imunossupressão ou outras infecções. Segundo os autores, a Covid-19 parece ser um desses gatilhos.
Os cientistas propõem o conceito de “disvirose” (“dysvirosis”, em inglês) para descrever um possível desequilíbrio provocado pela infecção por SARS-CoV-2 no conjunto de vírus latentes presentes no organismo. Em vez de atuar apenas como uma infecção isolada, o coronavírus poderia alterar esse ecossistema viral interno, favorecendo a reativação simultânea de diferentes agentes infecciosos.
Além dos herpesvírus, a pesquisa identificou a reativação de vírus da família Anelloviridae, pouco conhecidos pela ciência. Um de seus integrantes mais comuns, o torque teno vírus, é encontrado em cerca de 80% a 90% da população mundial. Embora não seja considerado um causador direto de doenças, estudos sugerem que ele pode estar associado ao agravamento de diferentes condições clínicas.
Os resultados também indicam uma possível relação entre a reativação viral e complicações observadas em pacientes com Covid-19. A presença de citomegalovírus detectado nas vias respiratórias, por exemplo, esteve associada a casos de pneumotórax, enquanto a identificação do HSV-1 no nariz foi relacionada a um maior risco de formação de coágulos sanguíneos. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que o estudo demonstra associação, mas ainda não estabelece uma relação de causa e efeito.
Segundo os autores, as descobertas sugerem que a reativação desses vírus pode contribuir para desfechos mais graves mesmo em pessoas que, inicialmente, não eram consideradas de alto risco para complicações da Covid-19.
Ainda não está claro se a vacinação contra o coronavírus ou o surgimento das variantes mais recentes alteram a frequência dessas reativações. Pesquisas anteriores já haviam levantado a hipótese de uma ligação entre a reativação do vírus Epstein-Barr e a Covid longa, mas revisões recentes apontam que essa relação ainda não foi completamente esclarecida.
Para os pesquisadores, os resultados podem ter impacto direto na assistência aos pacientes. Exames para detectar parte dos vírus estudados já estão disponíveis na prática clínica, e alguns herpesvírus podem ser tratados com medicamentos antivirais existentes. O próximo passo será investigar se a identificação precoce e o tratamento dessas reativações podem reduzir complicações tanto durante a fase aguda da Covid-19 quanto em casos de Covid longa.
Os autores destacam que novas pesquisas serão necessárias para confirmar o papel dessas reativações no agravamento da doença e para avaliar se estratégias terapêuticas direcionadas aos vírus latentes podem melhorar a recuperação dos pacientes.

