Cerca de 90% dos humanos são destros — e a ciência pode ter descoberto o motivo

Cerca de 90% dos humanos são destros — e a ciência pode ter descoberto o motivo

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Publicado em 18/05/26 às 16:18

A preferência pela mão direita, predominante entre os seres humanos, pode estar diretamente ligada a duas características centrais da evolução da espécie: a capacidade de andar ereto e o aumento do tamanho do cérebro. É o que sugere um novo estudo internacional publicado na revista científica PLOS Biology, que analisou padrões de lateralidade — a tendência de usar mais uma das mãos — em mais de 2 mil primatas de 41 espécies diferentes.

Os pesquisadores identificaram que, embora algumas espécies de macacos apresentem sinais moderados de preferência manual, nenhum outro primata demonstra um nível de dominância comparável ao dos seres humanos. Segundo os autores, os humanos representam um “ponto fora da curva” do ponto de vista evolutivo, já que a forte predominância do uso de uma das mãos não acompanha o padrão observado entre outros antropoides.

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A pesquisa avaliou dados de 2.025 indivíduos entre macacos e grandes primatas. Espécies como os macacos-aranha e os langures apresentaram níveis relativamente elevados de lateralização, mas ainda muito abaixo dos registrados em humanos.

Os cientistas afirmam, porém, que essa diferença deixa de parecer tão excepcional quando são considerados dois fatores biológicos específicos: o volume do cérebro e a proporção entre braços e pernas. Em humanos, pernas mais longas em relação aos braços estão associadas ao bipedalismo — a capacidade de caminhar sobre duas pernas —, característica que diferencia a espécie dos grandes primatas arborícolas, adaptados ao deslocamento entre árvores.

De acordo com os autores, a adoção da postura ereta teria libertado os membros superiores das funções de locomoção, permitindo o desenvolvimento de novas habilidades motoras. Isso abriu espaço para atividades como fabricação de ferramentas, comunicação gestual e tarefas de precisão, nas quais a especialização de uma das mãos poderia trazer vantagens de desempenho.

Ao mesmo tempo, o crescimento do cérebro ao longo da evolução humana teria favorecido uma maior especialização entre os hemisférios cerebrais, aumentando a eficiência neural de comportamentos lateralizados. Esse processo teria se intensificado especialmente após o surgimento do gênero Homo.

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Para reconstruir a origem dessa característica, os pesquisadores utilizaram dados arqueológicos e anatômicos de hominídeos extintos, incluindo proporções corporais e volume craniano. A análise sugere que a lateralização evoluiu gradualmente ao longo de milhões de anos.

Os primeiros hominídeos bípedes, como Ardipithecus e Australopithecus, provavelmente apresentavam preferência manual pouco acentuada. Com o aumento progressivo do cérebro, entretanto, a predominância da mão direita teria se fortalecido.

Segundo o estudo, a tendência já era relativamente marcante em espécies como Homo erectus e nos neandertais, atingindo seu ápice no Homo sapiens.

Em contraste, os chamados “hobbits” da Indonésia — referência aos indivíduos da espécie Homo floresiensis — provavelmente apresentavam lateralização mais fraca. Os cientistas atribuem isso ao cérebro relativamente pequeno e ao estilo de vida parcialmente arborícola desse grupo humano extinto.

O autor principal do estudo, o pesquisador Thomas A. Püschel, afirmou que esta é a primeira vez que diferentes hipóteses sobre a origem da lateralidade humana são avaliadas dentro de um mesmo modelo analítico.

Apesar dos avanços, o estudo ainda não responde a todas as questões relacionadas ao tema. Os pesquisadores destacam que permanece sem explicação definitiva o motivo de uma pequena parcela da população continuar sendo canhota, mesmo diante de um processo evolutivo que aparentemente favoreceu o uso predominante da mão direita.

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