Cientistas identificam possível extinção em massa anterior às cinco já conhecidas

Cientistas identificam possível extinção em massa anterior às cinco já conhecidas

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Publicado em 22/03/26 às 07:12

Um estudo recente publicado na revista científica Geology sugere que a Terra pode ter passado por sua primeira extinção em massa muito antes do que se imaginava. A pesquisa indica que cerca de 80% das formas de vida existentes há aproximadamente 550 milhões de anos desapareceram em um evento conhecido como Crise Kotlin — um índice que supera o limite convencional usado para classificar extinções em massa.

Até então, cientistas consideravam que esse episódio havia provocado uma perda significativa de biodiversidade, mas insuficiente para atingir o patamar mínimo de 75% das espécies extintas em um curto intervalo de tempo, critério que define oficialmente esse tipo de evento. Com a nova análise, porém, o cenário pode mudar.

De acordo com o paleobiólogo Duncan McIlroy, professor da Memorial University of Newfoundland e autor do estudo, a gravidade da Crise Kotlin foi subestimada. “A severidade desse evento de extinção é muito mais profunda do que se pensava anteriormente”, afirmou em comunicado.

A conclusão se baseia na análise de fósseis excepcionalmente preservados encontrados no sítio Inner Meadow, em Newfoundland, no Canadá. Esses organismos estavam incrustados em depósitos de cinzas vulcânicas antigas, o que contribuiu para sua conservação. O material revelou que a chamada biota ediacarana — composta por organismos de corpo mole e relativamente complexos — era mais diversa e sofisticada do que indicavam estudos anteriores.

período-ediacarano

O período Ediacarano, que antecede a explosão Cambriana (quando houve uma rápida diversificação da vida na Terra), é tradicionalmente dividido em três fases. A mais antiga, chamada de fauna de Avalon (entre 575 e 560 milhões de anos atrás), era dominada por organismos com estruturas semelhantes a fractais, conhecidos como rangeomorfos. Em seguida, a fauna do Mar Branco (560 a 550 milhões de anos) marcou o auge da diversidade, com a presença de formas primitivas de animais como Dickinsonia e Kimberella. Por fim, a fauna de Nama (550 a 538 milhões de anos) registrou um declínio na biodiversidade, culminando em uma transformação profunda dos ecossistemas.

A nova pesquisa indica que fósseis do tipo Avalon encontrados em Inner Meadow são cerca de 13 milhões de anos mais recentes do que outros exemplares semelhantes já conhecidos. Isso sugere que esses organismos sobreviveram por mais tempo do que se imaginava e desapareceram não em um evento isolado, mas durante a própria Crise Kotlin.

Essa sobreposição entre fases antes consideradas distintas reforça a hipótese de que a extinção foi mais ampla e afetou um número maior de espécies. Segundo McIlroy, o registro fóssil do início do Ediacarano é incomum por apresentar taxas quase nulas de extinção ao longo do tempo, o que torna o impacto da Crise Kotlin ainda mais surpreendente.

É impressionante pensar que esses organismos precedem imediatamente o primeiro evento de extinção em massa, em um período em que a estabilidade era a norma e os ancestrais dos grupos animais modernos estavam apenas começando a surgir, disse o pesquisador.

Apesar dos avanços, a causa da Crise Kotlin permanece desconhecida. Em outros episódios de extinção em massa, fatores como erupções vulcânicas intensas ou impactos de asteroides são frequentemente apontados como gatilhos. No entanto, até o momento, não há evidências claras que expliquem o que provocou esse colapso ecológico.

A descoberta abre novas perspectivas para o entendimento da evolução da vida na Terra e pode levar à revisão do número de grandes extinções reconhecidas pela ciência. Atualmente, cinco eventos principais são amplamente aceitos, sendo o mais antigo ocorrido há cerca de 445 milhões de anos, no período Ordoviciano. Alguns pesquisadores também alertam que o planeta pode estar entrando em uma sexta extinção em massa, impulsionada por atividades humanas.

Para esclarecer as causas da Crise Kotlin, cientistas afirmam que será necessário ampliar a busca por evidências em formações rochosas ao redor do mundo, em um esforço para reconstruir um dos períodos mais enigmáticos da história do planeta.

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