
Por que esta ave de 120 milhões de anos morreu engasgada com mais de 800 pedras em sua garganta
Por Sandro Felix
Publicado em 07/12/25 às 08:05
Uma descoberta recente deixou os paleontólogos intrigados: um fóssil de ave de 120 milhões de anos foi encontrado com a garganta cheia de pequenas pedras — uma condição tão incomum que pode ter sido a causa da morte do animal. A nova espécie, batizada de Chromeornis funkyi, era do tamanho de um pardal, mas possuía dentes pontiagudos na ponta do bico, semelhantes aos de aves fósseis maiores, como a Longipteryx.
O achado foi liderado pela paleontóloga Dra. Jingmai O’Connor, curadora associada de répteis fósseis no Museu Field de Chicago, que descreveu o caso como um dos fósseis mais enigmáticos de sua carreira.
Quando vi as pedras pela primeira vez, pensei que fossem gastrolitos — pedras digestivas comuns em aves e répteis —, mas a localização e a quantidade não faziam sentido, explicou durante entrevistas a jornalistas.

Ao analisar o fóssil em detalhe, os pesquisadores perceberam que as pequenas pedras — mais de 800 fragmentos minúsculos — estavam concentradas no esôfago e não no estômago, onde normalmente se encontram os gastrolitos. Além disso, muitas dessas “pedras” eram, na verdade, pequenas bolas de argila, o que tornava o achado ainda mais estranho.
Geralmente, os gastrolitos ajudam na digestão: aves e répteis engolem pequenas pedras que, dentro do estômago, funcionam como uma espécie de “moinho interno”, triturando alimentos duros. No entanto, entre os milhares de fósseis de aves semelhantes já estudados, nunca houve registro de um exemplar com pedras no esôfago — o que torna o Chromeornis funkyi uma exceção notável.
Uma morte acidental
Os cientistas acreditam que as pedras não se acumularam após a morte, mas sim causaram o sufocamento do animal ainda em vida. A hipótese mais provável é que o pássaro, possivelmente doente ou desorientado, tenha engolido acidentalmente uma grande quantidade de material sólido.
Sabemos que aves modernas podem exibir comportamentos estranhos quando estão doentes, afirmou O’Connor.
É possível que tenha engolido um monte de pedras e, ao tentar regurgitar, elas ficaram presas, bloqueando o trato respiratório.
Encontrar a causa da morte em um fóssil é um evento extremamente raro, já que o processo de fossilização normalmente destrói indícios tão delicados. Ainda assim, O’Connor tem experiência com fósseis que revelam histórias trágicas. Em 2009, ela publicou um estudo sobre Avimaia, uma ave fossilizada encontrada com um ovo preso dentro do corpo. A casca era anormalmente fina, indicando que o animal provavelmente morreu de retenção de ovo — uma condição fatal que também afeta aves modernas.
Outro exemplo é o Yanornis, uma ave antiga com intestinos obstruídos por pequenas pedras. Inicialmente, acreditava-se que se tratava de gastrolitos, mas O’Connor demonstrou que as pedras haviam se acumulado devido a uma obstrução intestinal, o que levou o animal à morte.
Esses fósseis contam histórias de sofrimento e morte, mas também nos ajudam a compreender o comportamento e a fisiologia dessas criaturas extintas, afirma.

Fósseis que contam histórias
O caso do Chromeornis funkyi se junta a uma lista de descobertas que mostram como a morte pode ser registrada de forma surpreendente no registro fóssil. Casos clássicos incluem os “dinossauros lutadores” da Mongólia, soterrados enquanto brigavam, e o “dragão adormecido” Mei long, fossilizado em posição de descanso após uma erupção vulcânica.
Esses registros não apenas revelam detalhes sobre as espécies, mas também contextos ambientais e comportamentais de milhões de anos atrás. No caso da nova espécie, o acúmulo de pedras no esôfago fornece pistas valiosas sobre seu comportamento alimentar e fisiologia.
A pesquisa completa sobre o Chromeornis funkyi foi publicada na revista científica Palaeontologica Electronica.
Curiosidades sobre o estudo
- O fóssil foi encontrado na China e pertence ao grupo das enantiornithes, aves primitivas que coexistiram com os dinossauros.
- As pedras fossilizadas variam de 0,2 a 1 milímetro e estavam densamente compactadas na região do pescoço.
- A estimativa é de que o animal tenha vivido há cerca de 120 milhões de anos, durante o período Cretáceo Inferior.
- O nome “Chromeornis funkyi” foi escolhido em homenagem ao brilho metálico das rochas ao redor do fóssil e ao caráter “inusitado” da descoberta.
