
Mudanças climáticas estão aumentando casos de diarreia em todo o mundo
Por Sandro Felix
Publicado em 19/01/24 às 16:11
As mudanças climáticas em curso na Terra estão alterando significativamente os padrões de transmissão de doenças infecciosas, e um novo estudo realizado por cientistas do Reino Unido destaca uma preocupação particular: a campilobacteriose, uma doença diarreica comum causada pelo gênero de bactérias Campylobacter. Enquanto muitos organismos lutam para se adaptar às mudanças climáticas, os agentes patogênicos por trás da campilobacteriose não apenas se adaptam, mas também prosperam.
O estudo, liderado pelo professor sênior em bioestatística e epidemiologia na Universidade de Surrey, Giovanni Lo Iacono, analisou dados da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA) abrangendo aproximadamente um milhão de casos de campilobacteriose na Inglaterra e no País de Gales ao longo de duas décadas. Os resultados revelaram uma ligação significativa entre as mudanças climáticas e a prevalência da doença.
As bactérias Campylobacter, principalmente C. jejuni e C. coli, responsáveis por doenças humanas, são transmitidas frequentemente por produtos de origem animal. O estudo explorou como as temperaturas elevadas, os dias mais longos e o aumento da umidade – todos efeitos colaterais das atuais mudanças climáticas – impactaram a transmissão dessas bactérias.
Os pesquisadores observaram um aumento contínuo nos casos de campilobacteriose com o aumento da temperatura. Em temperaturas abaixo de 8 °C, os casos permaneceram estáveis, mas para cada aumento de 5 °C na temperatura, houve um aumento nos casos. Além disso, a umidade entre 75% e 80% e dias mais longos (mais de 10 horas de luz solar) foram associados a uma maior taxa de infecção. Surpreendentemente, não foram encontradas ligações significativas com variáveis de chuva ou vento.
“O que descobrimos é que o aumento das temperaturas, a umidade e o aumento da duração do dia estão associados à propagação da campilobacteriose”, disse Lo Iacono. Ainda não está claro se é o comportamento das bactérias ou das pessoas durante esses períodos que impulsiona a propagação da doença.
A campilobacteriose afeta cerca de uma em cada 10 pessoas globalmente anualmente, sendo uma das principais causas de doenças diarreicas, segundo a Organização Mundial de Saúde. Transmitida principalmente por carnes mal cozidas, leite, água e gelo contaminados, a infecção causa sintomas desagradáveis, como diarreia, dor abdominal, dor de cabeça, náusea, vômito e febre.
Gordon Nichols, professor visitante da Universidade de Surrey, destacou a importância dos dados ambientais para entender padrões complexos na propagação de doenças. “Ter este conhecimento é inestimável, pois pode ajudar-nos a identificar áreas vulneráveis a potenciais surtos e garantir recursos para tratar as pessoas afetadas e conter a propagação de doenças.”
No entanto, a má notícia é que, embora a conexão entre as mudanças climáticas e a campilobacteriose tenha sido estabelecida, os pesquisadores ainda estão investigando o mecanismo por trás dela. O próximo passo é entender por que o clima afeta a propagação da doença, uma questão complicada e não totalmente compreendida.
Lo Iacono enfatizou: “É importante que, através de nossa abordagem transparente e conceitualmente simples, agora possamos saber o risco de contrair a doença quando conhecemos o clima local recente.” Este estudo destaca a necessidade urgente de compreender as interações complexas entre as mudanças climáticas e a saúde global.
O estudo completo foi publicado na revista PLOS Computational Biology.

