Estrutura geológica colossal é descoberta sob gelo da Antártida e pode ajudar a explicar impactos das mudanças climáticas

Estrutura geológica colossal é descoberta sob gelo da Antártida e pode ajudar a explicar impactos das mudanças climáticas

Data

Publicado em 11/06/26 às 16:42

Uma vasta estrutura geológica em forma de leque, escondida sob quilômetros de gelo na Antártida Oriental, foi identificada por uma equipe internacional de cientistas. A descoberta pode oferecer novas pistas sobre a dinâmica do manto de gelo do continente e ajudar pesquisadores a compreender melhor regiões consideradas particularmente vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

O complexo subterrâneo, batizado de Província de Bacias em Leque da Antártida Oriental, encontra-se sob a camada de gelo que cobre quase toda a região leste do continente. Em alguns pontos, o gelo ultrapassa três quilômetros de espessura, ocultando uma rede de grandes bacias e formações geológicas que permaneceram desconhecidas até agora.

O estudo foi liderado por Egidio Armadillo, da Universidade de Gênova, na Itália, com apoio do Programa Nacional Italiano de Pesquisa Antártica. A pesquisa também contou com a participação do geocientista Guy Paxman, do Departamento de Geografia da Universidade de Durham, no Reino Unido.

Segundo os pesquisadores, a estrutura reúne importantes formações subglaciais já conhecidas, incluindo as bacias de Wilkes e Aurora, além da região que abriga o Lago Vostok, considerado o maior lago subglacial conhecido da Terra.

A Antártida é coberta por uma imensa camada de gelo dividida em três grandes setores: Antártida Oriental, Antártida Ocidental e Península Antártica. Entre eles, a camada de gelo da Antártida Oriental é a maior massa continental de gelo do planeta e abriga o Polo Sul geográfico.

estrutura-geológica-em-forma-de-leque

Os cientistas acreditam que a formação da estrutura esteja relacionada a um processo geológico conhecido como extensão rotacional distribuída, no qual a crosta terrestre se expande gradualmente a partir de um ponto central. Caso a hipótese seja confirmada, o fenômeno poderá representar um dos maiores eventos desse tipo já identificados em uma crosta continental.

A origem da estrutura também pode estar ligada à fragmentação do antigo supercontinente Gondwana, que existiu há centenas de milhões de anos e reunia áreas atualmente pertencentes à América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia. Os pesquisadores sugerem que a formação possa guardar relação com a separação geológica entre a Antártida e a Austrália.

Embora o processo tenha ocorrido em um passado remoto, os efeitos da configuração geológica permanecem visíveis até hoje. A forma do relevo escondido sob o gelo influencia diretamente a maneira como as massas de gelo se deslocam pela Antártida, afetando a estabilidade de determinadas regiões.

Para os especialistas, compreender essa estrutura é fundamental para aprimorar modelos climáticos e previsões sobre o comportamento futuro da camada de gelo antártica. O mapeamento também ajuda a explicar a distribuição de lagos subglaciais e outros sistemas ocultos sob a superfície congelada.

estrutura-geológica-em-forma-de-leque

A pesquisa utilizou um conjunto amplo de técnicas de investigação geofísica. Os cientistas combinaram dados de topografia subglacial, medições magnéticas, levantamentos gravitacionais, modelos da litosfera e informações sísmicas para reconstruir a estrutura escondida sob o gelo.

Uma contribuição considerada decisiva veio do trabalho conduzido por Guy Paxman. O pesquisador liderou cálculos que estimam como seria a paisagem da Antártida Oriental caso toda a camada de gelo desaparecesse. Nesse cenário hipotético, a superfície terrestre voltaria a subir, elevando-se em alguns locais em até um quilômetro.

A chamada “topografia rebatida” permitiu aos cientistas analisar com maior precisão tanto a orientação quanto a altitude das formações recém-identificadas. Com isso, foi possível compreender melhor a arquitetura geológica da região e suas implicações para a evolução do continente.

A descoberta amplia o conhecimento sobre a história tectônica da Antártida e reforça a importância de estudos que investigam o que existe sob a maior reserva de água congelada do planeta. Em um contexto de aquecimento global e crescente preocupação com o aumento do nível dos oceanos, compreender os fatores que influenciam a estabilidade das geleiras antárticas tornou-se uma das prioridades da ciência climática mundial.

Deixe seu comentário

Deixe um comentário