
Trump volta a atacar papa Leão XIV e amplia tensão entre EUA e Vaticano
Por Sandro Felix
Publicado em 06/05/26 às 13:58
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a atacar publicamente o papa Leão XIV ao acusá-lo de contribuir para o fortalecimento do Irã no cenário internacional e de adotar uma postura considerada “ingênua” diante do risco nuclear envolvendo Teerã. As declarações aumentaram o desconforto diplomático entre Washington e o Vaticano às vésperas de uma viagem do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, à Santa Sé.
Em entrevista ao comentarista conservador Hugh Hewitt, Trump afirmou que o pontífice estaria ajudando a tornar o mundo “menos seguro” ao defender o diálogo e condenar ataques contra civis em meio à escalada de tensão entre Estados Unidos, Israel e Irã.
O papa prefere falar sobre o fato de não haver problema em o Irã ter uma arma nuclear, disse Trump durante a entrevista.
Isso coloca em risco milhões de pessoas, inclusive católicos.
A declaração, porém, contrasta com a posição oficial da Igreja Católica. Em nenhum momento Leão XIV afirmou apoiar o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã. O pontífice tem defendido negociações diplomáticas e reiterado o posicionamento histórico da Igreja contra armamentos nucleares e conflitos armados.
Na terça-feira, durante conversa com jornalistas no Vaticano, Leão XIV respondeu indiretamente às acusações do presidente norte-americano. Segundo ele, há uma “distorção deliberada” de suas falas por parte de setores políticos dos Estados Unidos.
A Igreja se manifesta há décadas contra todas as armas nucleares, portanto não há qualquer dúvida sobre nossa posição, afirmou o papa.
Nossa missão é anunciar o Evangelho e promover a paz. Quem desejar criticar essa mensagem deve fazê-lo com base na verdade.
O pontífice também reforçou que seus apelos por diálogo têm inspiração bíblica e não representam uma disputa política direta com Trump. Desde o início da atual crise no Oriente Médio, Leão XIV tem pedido moderação às potências envolvidas e condenado ameaças de ataques em larga escala contra áreas civis.

As declarações de Trump ocorrem em um momento sensível para a diplomacia norte-americana. Marco Rubio, que é católico praticante, prepara uma visita ao Vaticano ainda nesta semana para encontros com autoridades da Igreja e integrantes do governo italiano. A expectativa era de que a viagem ajudasse a reforçar pontes diplomáticas entre Washington e Roma, mas o novo embate verbal entre Trump e o papa pode dificultar o clima das reuniões.
Rubio tentou amenizar a crise ao afirmar que as críticas do presidente estão relacionadas exclusivamente ao temor de que o Irã desenvolva capacidade nuclear militar.
“O mundo inteiro deveria se opor à possibilidade de o Irã obter armas nucleares”, afirmou o secretário de Estado. Segundo ele, esse risco ameaça cristãos, católicos e populações civis em diversas regiões do planeta.

A controvérsia também provocou reações na Itália. A primeira-ministra Giorgia Meloni, considerada uma das principais aliadas europeias de Trump, demonstrou desconforto com o tom adotado pelo presidente americano contra o líder da Igreja Católica.
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, criticou publicamente as declarações do republicano. Em publicação nas redes sociais, afirmou que os ataques ao papa “não são aceitáveis nem úteis para a causa da paz”.
Reafirmo meu apoio a todas as ações e palavras do papa Leão XIV. Suas mensagens representam diálogo, valorização da vida humana e defesa da liberdade, escreveu Tajani.
Essa visão é compartilhada pelo governo italiano, que atua diplomaticamente pela estabilidade e pela paz nas regiões em conflito.
O atrito entre Trump e aliados europeus também se intensificou nas últimas semanas após o Pentágono anunciar estudos para reduzir a presença militar norte-americana na Alemanha, decisão interpretada por integrantes da Otan como um sinal de pressão sobre parceiros considerados insuficientemente comprometidos com os esforços militares liderados pelos Estados Unidos.
Rubio deve se reunir com Meloni e Tajani na sexta-feira (8), em Roma, antes de seguir para compromissos no Vaticano. A viagem será observada de perto por diplomatas europeus e representantes da Santa Sé, que acompanham com preocupação o aumento das tensões políticas envolvendo Washington, a Igreja Católica e aliados tradicionais dos EUA.
