
Hack histórico rompe proteção do Xbox One após mais de uma década
Por Sandro Felix
Publicado em 16/03/26 às 16:13
O mundo da tecnologia registrou nesta semana um feito considerado improvável por especialistas em segurança digital: a proteção da Xbox One, console lançado pela Microsoft em 2013, foi finalmente quebrada após 13 anos sem registros de invasões completas. O anúncio foi feito durante a conferência de segurança RE//verse 2026, onde pesquisadores apresentaram um método capaz de executar código não autorizado no sistema do aparelho.
Desde seu lançamento, o Xbox One havia se destacado pela robustez de sua arquitetura de segurança. Ao longo de mais de uma década, tentativas de modificação do sistema — comuns em gerações anteriores de consoles — falharam diante das camadas de verificação implementadas pela fabricante. O dispositivo chegou a ser visto por especialistas como um dos sistemas de entretenimento doméstico mais difíceis de ser comprometido.
O cenário mudou com a apresentação do método chamado Bliss, revelado pelo pesquisador Markus “Doom” Gaasedelen. A técnica permite que programas não assinados sejam executados em todos os níveis do sistema operacional do console, algo considerado impossível até então.
Técnica usa falhas elétricas para contornar segurança
Segundo os detalhes divulgados na conferência, o ataque não depende de vulnerabilidades de software, mas de uma manipulação física no hardware do console. A estratégia explora um comportamento do processador durante o processo de inicialização do sistema.
Gaasedelen demonstrou que é possível induzir duas quedas de tensão extremamente rápidas no chip principal do Xbox One. Esses pequenos distúrbios elétricos confundem temporariamente os mecanismos internos de verificação do processador, permitindo que a proteção de memória seja ignorada por frações de segundo. Nesse intervalo, o sistema passa a aceitar código que não foi autorizado pela Microsoft.
A precisão exigida para realizar o procedimento é alta. O ataque depende de medições exatas de tempo e voltagem para produzir os dois “glitches” elétricos consecutivos que desativam momentaneamente os protocolos de segurança. Uma vez superada essa etapa, o invasor obtém acesso ao hipervisor — camada responsável por controlar o sistema operacional e garantir que apenas softwares certificados sejam executados.
Por se tratar de uma vulnerabilidade diretamente relacionada ao hardware do chip, especialistas afirmam que o problema não pode ser corrigido por atualizações de software ou por patches distribuídos pela internet. Na prática, isso significa que todos os consoles da linha permanecem potencialmente vulneráveis ao método, desde que a intervenção física seja realizada.
Impacto para preservação digital e pesquisa
Embora a palavra “hack” costume ser associada a pirataria, parte da comunidade tecnológica vê a descoberta sob outra perspectiva. Pesquisadores e arquivistas digitais afirmam que a possibilidade de acessar completamente o sistema do Xbox One pode ajudar na preservação histórica de jogos e tecnologias da geração.
Com acesso direto ao firmware e aos mecanismos internos do console, será possível estudar em detalhes o funcionamento da arquitetura da máquina. Isso pode facilitar o desenvolvimento de ferramentas de emulação capazes de reproduzir o comportamento do Xbox One em computadores ou outros dispositivos no futuro.
Esse tipo de iniciativa ganhou importância nos últimos anos à medida que serviços online e servidores de jogos antigos são desativados. Sem documentação técnica completa, muitos títulos acabam se tornando difíceis de preservar ou de executar fora do hardware original.
Além da preservação, especialistas apontam que o avanço pode contribuir para pesquisas em segurança de sistemas embarcados. O método demonstra como ataques físicos, especialmente aqueles baseados em manipulação de tensão, continuam sendo uma ameaça real mesmo em plataformas projetadas com múltiplas camadas de proteção.
Também existe a possibilidade de que, no futuro, surjam dispositivos capazes de automatizar o processo de indução das falhas elétricas necessárias para executar o ataque. Atualmente, o procedimento exige equipamentos especializados e conhecimento técnico avançado.
Para o público geral, o impacto imediato tende a ser limitado. Muitos dos jogos da plataforma já estão disponíveis em computadores por meio do ecossistema da própria Microsoft. Ainda assim, a quebra da proteção encerra um longo período de invulnerabilidade que havia se tornado um símbolo da engenharia de segurança da empresa.

