
Políticos dos EUA suspeitam de pressão de Trump para Netflix desistir da compra da Warner
Por Sandro Felix
Publicado em 06/03/26 às 16:12
A Paramount surpreendeu o mercado de mídia e entretenimento ao avançar rapidamente para assumir o controle da Warner Bros. Discovery, em uma negociação que, até poucas semanas atrás, parecia improvável diante da disputa direta com a Netflix. O que parecia uma missão quase impossível acabou se transformando em um desfecho favorável para a empresa liderada por David Ellison, após meses de negociações tensas e reviravoltas políticas em Washington.
A aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount ganhou força graças a uma combinação de estratégia agressiva e mudanças inesperadas no cenário regulatório e político dos Estados Unidos. Embora a proposta financeira da Paramount fosse significativamente superior à apresentada pela Netflix, o conselho de administração da Warner havia rejeitado repetidamente as investidas da companhia ao longo de vários meses.
A situação mudou drasticamente nas últimas duas semanas. O ponto de virada ocorreu após o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciar a abertura de uma investigação oficial relacionada à negociação. A medida levou executivos da Warner a reconsiderar a postura anterior e reabrir conversas com Ellison, ainda que mantendo em vigor um acordo preliminar firmado com a Netflix em dezembro.
Naquele momento, a Netflix ainda detinha vantagem por conta da proposta inicial, considerada sólida pelo conselho da Warner. Ao mesmo tempo, a empresa pressionava a Paramount a melhorar sua oferta caso quisesse permanecer na disputa. Em resposta, Ellison decidiu elevar a aposta e chegou a preparar uma oferta pública de aquisição hostil direcionada diretamente aos acionistas da Warner, estratégia que poderia alterar o equilíbrio da disputa.
No entanto, a ofensiva mais agressiva acabou se tornando desnecessária. Na quinta-feira passada, os co-diretores executivos da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, anunciaram a retirada oficial da empresa da concorrência pela aquisição da Warner Bros. Discovery. Segundo os executivos, a proposta apresentada pela Netflix em dezembro já refletia um valor justo pela companhia, e não havia justificativa para entrar em uma escalada de ofertas contra a Paramount.
Com a saída da Netflix, a Paramount passou a ser a única candidata restante para assumir o controle da Warner Bros. Discovery, abrindo caminho para a consolidação de uma das maiores fusões da indústria do entretenimento nos últimos anos.
Apesar do desfecho aparentemente comercial, a decisão da Netflix gerou suspeitas de interferência política em Washington. As dúvidas surgiram após a visita recente de Ted Sarandos à Casa Branca, onde se reuniu com autoridades da administração do presidente Donald Trump, entre elas a procuradora-geral Pam Bondi e a chefe de gabinete Susie Wiles.
A coincidência entre os encontros e a retirada da Netflix da disputa foi considerada suspeita por parte da imprensa e de parlamentares. De acordo com a rede NBC, a proximidade temporal entre os eventos levantou questionamentos sobre possíveis pressões políticas nos bastidores da negociação.
Três parlamentares democratas — os senadores Elizabeth Warren e Richard Blumenthal, além do deputado Sam Liccardo — enviaram uma carta ao Departamento de Justiça pedindo esclarecimentos sobre o episódio. No documento, os legisladores solicitam detalhes sobre as reuniões de Sarandos com autoridades do governo e querem saber se houve qualquer tipo de pressão para que a Netflix abandonasse a disputa.
Segundo os parlamentares, é necessário verificar se a decisão foi motivada por fatores econômicos ou se houve influência política indevida que favorecesse a Paramount. A empresa controlada pela família Ellison mantém relações próximas com Trump, o que ampliou as suspeitas entre críticos da negociação.
A Casa Branca negou qualquer interferência direta no processo. O próprio Trump afirmou publicamente que não teve participação na disputa empresarial. Ainda assim, a carta enviada pelos parlamentares pede que o Departamento de Justiça esclareça se a investigação anunciada anteriormente influenciou as decisões estratégicas das empresas envolvidas.
Ted Sarandos também negou irregularidades. O executivo afirmou que seus encontros em Washington foram rotineiros e que não houve qualquer discussão sobre a disputa pela Warner Bros. Discovery.
Até o momento, o Departamento de Justiça confirmou apenas o recebimento da carta enviada pelos parlamentares, sem fornecer detalhes adicionais sobre eventuais apurações.

Caso seja concluída, a aquisição dará à Paramount controle sobre um amplo portfólio de ativos da Warner Bros. Discovery. Além das plataformas de streaming, o conglomerado inclui grandes estúdios de cinema, redes de televisão e canais de notícias como a CNN, frequentemente alvo de críticas públicas do presidente Trump.
Especialistas do setor apontam que a fusão pode acelerar o processo de consolidação da indústria do entretenimento, reduzindo o número de grandes grupos capazes de competir globalmente no mercado de streaming e produção audiovisual.
Com a Netflix fora da disputa e a Paramount como única interessada na compra, o resultado prático pode ser uma concentração ainda maior no setor — cenário que, segundo analistas, pode impactar a diversidade de conteúdos e a competição entre plataformas.
Independentemente de quem assuma definitivamente o controle da Warner Bros. Discovery, a disputa deixou claro o peso crescente de fatores políticos e regulatórios nas grandes negociações da indústria de mídia nos Estados Unidos.

