Reflorestamento bilionário na China faz deserto capturar mais CO2 do que emite

Reflorestamento bilionário na China faz deserto capturar mais CO2 do que emite

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Publicado em 22/02/26 às 06:38

Durante décadas, o deserto de Taklamakan, na região chinesa de Xinjiang, foi descrito como um vazio absoluto no mapa: um mar de dunas onde a vida parecia improvável. Considerado um dos ambientes mais áridos do planeta, registra precipitações que, mesmo na estação mais úmida, raramente ultrapassam 16 milímetros por mês. Agora, porém, o cenário começa a mudar. Aos poucos, essa paisagem extrema está se transformando em um vasto sumidouro de carbono, capaz de absorver mais dióxido de carbono (CO2) do que libera na atmosfera.

A mudança está ligada à chamada Grande Muralha Verde da China, um dos projetos ambientais mais ambiciosos já implementados no mundo. A iniciativa busca conter o avanço da desertificação por meio do plantio de bilhões de árvores nas bordas do Taklamakan e do vizinho deserto de Gobi. Dados recentes indicam que as áreas periféricas do Taklamakan já apresentam saldo positivo na captura de carbono, marco considerado relevante no combate às mudanças climáticas.

deserto de Taklamakan

Com cerca de 337 mil quilômetros quadrados — área superior à metade do território da França —, o Taklamakan sempre foi símbolo de hostilidade ambiental. Ao longo das últimas décadas, a desertificação se intensificou em razão da expansão agrícola e urbana no norte da China, aumentando a frequência e a intensidade das tempestades de areia. Esses eventos passaram a atingir cidades distantes, afetando a qualidade do ar e gerando prejuízos econômicos.

Em resposta, Pequim acelerou um amplo programa de reflorestamento com espécies resistentes, como álamos e outras variedades adaptadas a climas secos. Desde o início da política, mais de 66 bilhões de árvores foram plantadas no norte do país. Em 2024, o governo anunciou a consolidação de um cinturão verde de 3.000 quilômetros ao redor do Taklamakan, elevando a cobertura florestal da região de cerca de 10% para mais de 25%.

Pesquisas recentes sugerem que a revegetação já provocou efeitos perceptíveis no microclima local. Em determinadas áreas, as chuvas de verão teriam dobrado em comparação a décadas anteriores, criando condições ligeiramente mais úmidas. O aumento da cobertura vegetal também estaria contribuindo para a redução das tempestades de areia, tanto em intensidade quanto em frequência.

Especialistas, no entanto, recomendam cautela. Embora os resultados iniciais sejam considerados promissores, há dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo no longo prazo. Pesquisadores em ecologia e recursos hídricos alertam que o plantio massivo de árvores em regiões desérticas pode pressionar aquíferos subterrâneos já limitados. Algumas espécies utilizadas exigem grandes volumes de água para sobreviver, o que poderia levar à superexploração de reservas hídricas estratégicas.

Também há preocupações quanto aos impactos sobre a biodiversidade local. A introdução de espécies não nativas ou a formação de corredores lineares de vegetação pode alterar habitats adaptados a condições áridas, deslocando flora e fauna que evoluíram para sobreviver em ambientes extremos. Alterações no microclima — como mudanças na umidade do solo e na temperatura — podem gerar efeitos imprevisíveis nos ecossistemas ao redor.

deserto de Taklamakan

Para parte da comunidade científica, o Taklamakan se tornou um laboratório a céu aberto sobre como intervenções humanas em larga escala podem remodelar ambientes considerados inóspitos. Se por um lado o avanço da Grande Muralha Verde sinaliza uma possível solução para conter a desertificação e mitigar emissões de carbono, por outro levanta questões sobre os limites da engenharia ecológica.

O desafio agora é equilibrar ganhos climáticos com a preservação dos recursos hídricos e da biodiversidade. Em um contexto global de aquecimento e degradação ambiental, a experiência chinesa poderá oferecer lições — positivas ou negativas — para outros países que enfrentam o avanço dos desertos.

O antigo “mar de areia” de Xinjiang já não é apenas um símbolo de aridez. Transformado em experimento ambiental de escala continental, o Taklamakan passa a representar tanto as promessas quanto as incertezas de um mundo que busca, com urgência, soluções para suas próprias mudanças.

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