
Anquilossauro mais antigo já encontrado possuía armadura nunca vista em nenhum outro vertebrado
Por Sandro Felix
Publicado em 27/08/25 às 16:44
Um dos dinossauros mais impressionantes já descritos pela ciência acaba de ganhar um novo capítulo em sua história. Pesquisadores anunciaram a descoberta de fósseis inéditos de Spicomellus afer, considerado o mais antigo membro conhecido do grupo dos anquilossauros — dinossauros famosos por suas placas ósseas de proteção e caudas em forma de clava.
Os novos achados surpreenderam a comunidade científica: o animal possuía espinhos enormes, alguns chegando a quase um metro de comprimento, diretamente fundidos aos ossos de suas costelas. Essa característica não é observada em nenhum outro dinossauro — nem mesmo em qualquer outro vertebrado conhecido, vivo ou extinto.
A armadura de Spicomellus não se parece com a de nenhum outro anquilossauro, afirmou a paleontóloga Susannah Maidment, pesquisadora sênior do Museu de História Natural de Londres.
Enquanto outros anquilossauros tinham colares ósseos em torno do pescoço, geralmente em formato achatado ou em placas piramidais, o Spicomellus exibia quatro espinhos de aproximadamente um metro, partindo de uma robusta faixa óssea ao redor do pescoço. É algo totalmente fora do comum.
Os fósseis, datados de 165 milhões de anos (período Jurássico Médio), foram encontrados na região da atual cidade de Boulemane, no Marrocos. Até então, a espécie era conhecida apenas por um fragmento de costela descrito em 2021, quando foi identificada como o primeiro anquilossauro descoberto no continente africano. Agora, com os novos restos, ficou claro que sua anatomia era ainda mais singular do que se imaginava.
Além dos espinhos longos no pescoço, os pesquisadores identificaram que todas as costelas do animal eram recobertas por osteodermas pontiagudos, lembrando “alfinetes saindo de uma almofada”.

Apesar de parecerem uma arma formidável contra predadores, os cientistas levantam a hipótese de que esses espinhos não tinham função defensiva, mas sim de exibição. Eles poderiam ter sido usados em disputas entre machos ou para atrair parceiras, funcionando de maneira semelhante à cauda de um pavão ou aos chifres de cervos atuais.
Encontramos dentes de grandes terópodes na mesma região, o que indica a presença de predadores. Mas acreditamos que os espinhos exagerados do Spicomellus talvez fossem menos para intimidar inimigos e mais para impressionar rivais ou parceiras em potencial, explicou Maidment.
O estudo, publicado na revista Nature, também levanta uma questão intrigante sobre a evolução dos anquilossauros. Segundo o coautor Richard Butler, da Universidade de Birmingham, normalmente os primeiros representantes de um grupo animal apresentam formas mais simples, enquanto as adaptações mais extravagantes surgem em estágios posteriores da evolução.
É extremamente incomum que o membro mais antigo de um grupo — que sobreviveu por mais de 100 milhões de anos — exiba as características mais extremas já observadas, disse Butler.
Talvez o Spicomellus seja apenas uma exceção, ou talvez precisemos repensar tudo o que sabemos sobre a evolução dos anquilossauros.
Independentemente da resposta, a descoberta coloca o Spicomellus afer como um dos dinossauros mais enigmáticos já encontrados, desafiando o entendimento atual sobre a diversidade e as estratégias evolutivas desses gigantes pré-históricos.
