
Fóssil encontrado na Austrália revela que os saurópodes não mastigavam os alimentos
Por Sandro Felix
Publicado em 09/06/25 às 16:54
Pela primeira vez na história da paleontologia, cientistas descobriram conteúdo estomacal fossilizado de um dinossauro saurópode, revelando informações inéditas sobre a dieta e o processo digestivo desses gigantes pré-históricos. O achado foi feito a partir de um exemplar da espécie Diamantinasaurus matildae, que viveu entre 94 e 101 milhões de anos atrás, durante o período Cretáceo Médio, na região que hoje corresponde a Queensland, na Austrália. O fóssil foi escavado em 2017 por pesquisadores e voluntários do Australian Age of Dinosaurs Museum of Natural History e continha, além de ossos bem preservados, uma massa rochosa incomum próxima à região abdominal. Após análises detalhadas, confirmou-se que se tratava de um colólito – o nome técnico para conteúdo estomacal fossilizado – repleto de restos vegetais em camadas.
A presença desse colólito representa um marco, considerando que os saurópodes, embora amplamente estudados, nunca haviam fornecido evidências diretas sobre o que comiam. O conteúdo revelou a ingestão de diferentes tipos de plantas, incluindo coníferas, estruturas reprodutivas de fetos-sementes e folhas de angiospermas, sugerindo uma dieta herbívora variada. O mais impressionante, no entanto, foi a constatação de que esses animais praticamente não mastigavam os alimentos. Em vez disso, o processo digestivo ocorria por fermentação no intestino, com auxílio de microrganismos, mecanismo semelhante ao de animais modernos como elefantes e cavalos.
Segundo o paleontólogo Stephen Poropat, da Universidade Curtin e autor principal do estudo publicado na revista Current Biology, essa fermentação interna gerava uma quantidade significativa de calor, funcionando como uma espécie de “forno gástrico”. Poropat sugere que o longo pescoço e cauda dos saurópodes teriam também a função de dissipar esse calor, de forma semelhante às orelhas dos elefantes. A descoberta não apenas reforça a imagem dos saurópodes como grandes comedores de vegetais, mas também indica que eles impactavam o ambiente ao longo de toda a vida. Desde o nascimento, com filhotes devastando vegetação rasteira, até a vida adulta, alcançando as copas das árvores ou se alimentando como “aspiradores biológicos” do solo, esses dinossauros funcionavam como verdadeiros engenheiros de ecossistemas.

Para os cientistas, esse estudo não só responde antigas perguntas sobre os hábitos alimentares dos saurópodes, como também levanta novas hipóteses sobre sua influência na evolução das plantas. A pressão imposta por esses gigantes teria estimulado adaptações defensivas nas plantas, como espinhos, toxinas ou sementes envoltas em frutos, além de influenciar diretamente os ciclos ecológicos por meio da dispersão de sementes. A descoberta, publicada em junho de 2025, é considerada um divisor de águas na compreensão do comportamento alimentar e ecológico dos maiores animais terrestres que já habitaram a Terra.
