
Pintura de 1562 onde pessoas aparecem montadas em dinossauros é resultado da falta de conhecimento do artista
Por Sandro Felix
Publicado em 20/01/24 às 07:25
Na vastidão da internet, surgem com frequência relatos e imagens que supostamente evidenciam a presença de viajantes do tempo. A mais recente “farsa histórica” chama a atenção pela ousadia: uma pintura renascentista que retrata humanos montando dinossauros, séculos antes da descoberta dos primeiros fósseis.
A alegada evidência remonta a uma pintura de 1562 atribuída a um certo “Peter-Bruce Gale”. Contudo, ao aprofundarmos a análise, surge uma série de contradições que desmontam a narrativa fantasiosa. A começar pelo próprio autor, pois não existe registro de um pintor com esse nome. Na realidade, o autor da obra é Pieter Bruegel, o Velho, um pintor flamenco conhecido por suas representações de eventos bíblicos.

A cena em questão retrata o suicídio do rei Saulo, após sua derrota pelos filisteus no monte Gilboa. A presença dos dinossauros, no entanto, é explicada pela inexperiência artística e pela falta de conhecimento sobre a fauna exótica. Em sua representação, Bruegel tentou retratar camelos, como descritos na narrativa bíblica associada ao evento. A peculiaridade na representação dos animais se deve ao fato de que o pintor nunca tinha visto um camelo em sua vida.
Outros elementos da pintura contribuem para desmentir a alegação de dinossauros convivendo com seres humanos na Renascença. Os soldados retratados estão vestindo armaduras medievais europeias, empunhando armas ocidentais e imersos em um cenário nitidamente europeu, não condizente com a ambientação do Oriente Médio. Esses detalhes revelam a limitação do conhecimento geográfico e cultural do artista.

Numa época em que as viagens eram desafiadoras e as oportunidades de observação limitadas, os artistas muitas vezes baseavam suas representações em relatos orais e interpretações imprecisas. Os camelos, neste caso, tornam-se vítimas da falta de familiaridade do pintor com esses animais exóticos, juntando-se a uma longa lista de criaturas representadas de maneiras cômicas e pouco fiéis à natureza.
Cute and slightly surprised #medieval camel from an 11th C. copy of Ovid's Metamorphoses, made in Bari and now held at @Biblioteca_Na
BNN MS IV.F.3. f39v pic.twitter.com/p2D8KQ5gPE
— Mateusz Fafinski (@Calthalas) February 9, 2018
A thread of medieval lions who are *very* good boys, please feel free to add any you know of! #notalion pic.twitter.com/El3VSug1Q0
— Dr Alice Hicklin (@alicehicklin) July 11, 2021
date idea: send your partner a medieval painting of an animal and have them try desperately, and often in vain, to guess which animal it is (i.e, this is a camel) pic.twitter.com/AWV1dZFliz
— 𝕮𝖆𝖘 ♡ (@gacktphobic) March 1, 2022
Em resumo, a suposta evidência de dinossauros na Renascença é desmascarada como uma interpretação equivocada de uma pintura bíblica. O autor, longe de ser um visionário que antecipou a descoberta paleontológica, foi simplesmente vítima de sua própria falta de conhecimento sobre a fauna e as características regionais. Nesse contexto, é crucial exercer cautela ao avaliar tais narrativas, separando a imaginação criativa da realidade histórica.
