
Fabricante chinesa de chips estreia com alta de 466% na Bolsa de Xangai e se torna a empresa mais valiosa da China
Por Sandro Felix
Publicado em 28/07/26 às 17:38
A fabricante chinesa de semicondutores ChangXin Memory Technologies (CXMT) tornou-se nesta segunda-feira (27) a empresa de capital aberto mais valiosa da China continental após uma estreia histórica na Bolsa de Xangai. As ações da companhia encerraram o primeiro dia de negociação com valorização de 466% em relação ao preço da oferta pública inicial (IPO), elevando seu valor de mercado para cerca de 3,28 trilhões de yuans (aproximadamente US$ 485 bilhões ou R$ 2,49 trilhões).
A empresa, sediada em Hefei, definiu o preço de emissão em 8,66 yuans por ação, mas os papéis abriram cotados a 49,50 yuans e chegaram à máxima intradiária de 55,03 yuans antes de fechar próximos de 49 yuans. Com a operação, a companhia levantou 57,92 bilhões de yuans, montante que poderá alcançar até 66,6 bilhões de yuans caso seja exercida a opção de lote suplementar (overallotment). A abertura de capital já é considerada a maior da Ásia em 2026 e a segunda maior da história da China, atrás apenas da realizada pelo Agricultural Bank of China em 2010.
O desempenho também bateu recordes de liquidez. O volume financeiro negociado superou 140 bilhões de yuans, tornando a CXMT a primeira empresa listada na China continental a ultrapassar a marca de 100 bilhões de yuans movimentados em um único pregão. Sozinha, a fabricante respondeu por cerca de 7% de todas as negociações realizadas no mercado acionário doméstico chinês durante o dia.
A valorização explosiva ocorreu em um contexto de baixa oferta de ações no mercado. Apenas cerca de 7% do capital da empresa estava disponível para negociação no primeiro dia, enquanto a demanda foi considerada excepcional. Investidores individuais registraram aproximadamente 9,4 milhões de ordens de compra, somando mais de 7 trilhões de yuans em intenções de investimento, um volume muito superior ao observado em grandes estreias recentes do mercado global.
Chips para inteligência artificial impulsionam corrida tecnológica
O sucesso da estreia reforça a importância estratégica da indústria de semicondutores para a economia chinesa. A CXMT é especializada na produção de memórias DRAM, componente essencial para smartphones, computadores pessoais, servidores e centros de dados voltados à inteligência artificial.
A crescente demanda por infraestrutura de IA elevou significativamente a procura por chips de memória nos últimos anos, tornando o segmento um dos mais disputados da indústria global de tecnologia. Segundo dados da consultoria Omdia, a companhia já detinha 7,67% do mercado mundial de DRAM no fim de 2025, ocupando a quarta posição global, atrás de Samsung, SK Hynix e Micron, que ainda concentram cerca de 90% da produção mundial.
Os resultados financeiros também ajudaram a sustentar o entusiasmo dos investidores. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou lucro operacional de 35,43 bilhões de yuans, revertendo o prejuízo de 2,83 bilhões de yuans registrado no mesmo período do ano anterior, impulsionada pelo aquecimento do mercado de memória para aplicações de inteligência artificial.
A ascensão da fabricante ocorre em meio aos esforços de Pequim para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros de semicondutores diante das restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso da China às tecnologias mais avançadas de fabricação de chips. Embora ainda enfrente limitações para produzir memórias de última geração por não ter acesso às máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV), a empresa vem ampliando rapidamente sua capacidade produtiva e investindo bilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento.
Antes da estreia, o forte interesse dos investidores levou o órgão regulador do mercado de capitais chinês a realizar reuniões com corretoras, gestoras de recursos e representantes do setor financeiro diante do receio de que a oferta drenasse liquidez de outras empresas de tecnologia listadas em bolsa. O temor, no entanto, não se confirmou: o índice Shanghai Composite encerrou o pregão em alta de cerca de 1,2%, indicando que o mercado absorveu a operação sem provocar instabilidade relevante.
O impacto da estreia foi sentido também fora da China. A valorização da CXMT e a perspectiva de fortalecimento da indústria chinesa de memória pressionaram ações de fabricantes globais de semicondutores, como Micron, Samsung, SK Hynix e fornecedores de equipamentos para chips, reacendendo as discussões sobre o avanço tecnológico chinês e a intensificação da disputa mundial pelo domínio da cadeia de semicondutores voltada à inteligência artificial.


