
Estudo revela que os banhos públicos da antiga Pompeia estavam repletos de dejetos humanos
Por Sandro Felix
Publicado em 17/01/26 às 16:11
Novas descobertas científicas indicam que a experiência de banho na antiga Pompeia estava longe dos padrões de limpeza frequentemente associados aos romanos. Pesquisadores identificaram que, nos primeiros complexos de banhos da cidade, a água era trocada apenas uma vez por dia e frequentemente continha uma mistura de resíduos humanos e metais pesados.
A conclusão resulta da análise detalhada de incrustações minerais preservadas em poços, canos e piscinas antigas. A partir desses depósitos, os cientistas conseguiram reconstruir o funcionamento dos sistemas hidráulicos ao longo do tempo. O estudo foi publicado nesta semana na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

Segundo os pesquisadores, antes da construção de um aqueduto no século I d.C., os banhos de Pompeia dependiam exclusivamente de água subterrânea extraída de poços profundos. Essa fonte era limitada e frequentemente contaminada por suor, urina e outros resíduos orgânicos deixados pelos próprios banhistas. Além disso, análises químicas detectaram a presença de chumbo, cobre e zinco, provavelmente provenientes de depósitos vulcânicos que se infiltravam lentamente no lençol freático.
Embora haja indícios de que a água fosse renovada diariamente, o volume disponível era pequeno demais para eliminar completamente os contaminantes. Como resultado, a reputação de higiene associada aos banhos públicos romanos não se aplicaria aos períodos mais antigos da cidade.
A situação começou a mudar com a chegada do aqueduto, que passou a abastecer as termas com água de nascentes naturais. Essa nova fonte apresentava menor concentração de metais e podia ser reposta com muito mais frequência, melhorando significativamente a circulação e a diluição das impurezas — ainda que o problema não tenha sido totalmente resolvido.
Testes isotópicos confirmaram que as instalações mais antigas, conhecidas como Banhos Republicanos e construídas antes do domínio romano, eram abastecidas por poços raramente renovados. À época, o sistema dos samnita utilizava um grande mecanismo de roda de tração, operado por escravizados, para puxar a água do subsolo. A capacidade limitada desse método não atendia à demanda de banhos públicos lotados.
Com o aqueduto, o fornecimento de água aumentou em quase 50 vezes, impulsionando fontes, spas e áreas públicas. Ainda assim, relatos históricos sugerem que o ambiente continuava barulhento, congestionado e malcheiroso. Pessoas se exercitavam, suavam, aliviavam necessidades fisiológicas nas piscinas e raspavam a pele morta, tudo em água compartilhada que nem sempre era renovada a tempo.
“Água turva, sujeira flutuando e uma sensação geral de imundície provavelmente eram comuns”, afirmam os autores do estudo. Escritores romanos da época, inclusive, questionavam a lógica de buscar saúde em locais onde se mergulhava, literalmente, nos resíduos alheios.
Pompeia, localizada no sul da Itália, foi originalmente habitada pelos samnitas antes de se tornar uma cidade romana em 80 a.C. Cerca de 160 anos depois, a erupção do Monte Vesúvio soterrou a cidade sob cinzas e rochas, preservando vestígios do cotidiano antigo.
Agora, os pesquisadores planejam realizar testes de DNA nos depósitos minerais restantes para identificar com mais precisão o que os banhistas levavam consigo para a água. As análises podem revelar novos detalhes sobre a vida diária e os riscos à saúde enfrentados nos famosos banhos da Pompeia antiga.


