
Cientistas descobrem novo ser vivo capaz de viver a 63 °C
Por Sandro Felix
Publicado em 14/01/26 às 16:37
Pesquisadores identificaram um organismo inesperado em um dos ambientes mais extremos do oeste dos Estados Unidos. Em mananciais geotermais de pH neutro no Parque Nacional Volcânico Lassen, no norte da Califórnia, uma equipe científica detectou uma ameba capaz de crescer e se dividir em temperaturas que desafiam o que se conhece sobre os limites da vida complexa. O parque, localizado nos Estados Unidos, é conhecido por abrigar microrganismos adaptados a águas quentes e ricas em enxofre, geralmente bactérias e arqueias. A presença de um eucariota — célula com núcleo e compartimentos internos — surpreendeu os pesquisadores.
Batizado de Incendiamoeba cascadensis e apelidado de “ameba de fogo” em algumas coberturas internacionais, o organismo foi isolado a partir de amostras coletadas entre 2023 e 2025 em diferentes pontos do sistema hidrotermal do parque. Segundo o estudo, divulgado em formato de preprint — versão preliminar ainda não revisada por pares —, amebas foram encontradas em 14 dos 20 locais analisados, indicando que a diversidade de eucariotas microscópicos nesse tipo de ambiente pode ser maior do que se imaginava.
Em laboratório, a ameba mostrou capacidade de crescimento ativo a 63 °C. Quando submetida a temperaturas ainda mais altas, resistiu até 70 °C ao entrar em um estado de latência semelhante ao de um cisto, no qual o metabolismo é drasticamente reduzido. Para os autores, esse comportamento sugere uma estratégia de sobrevivência que permite atravessar condições consideradas letais para a maioria das células com núcleo.
O achado coloca em xeque um consenso antigo da biologia. Tradicionalmente, o “limite térmico” dos eucariotas é visto como mais baixo do que o dos procariotas, já que estruturas internas como membranas, proteínas e organelas são mais sensíveis ao calor. Manter essa maquinaria estável em temperaturas elevadas, onde reações químicas se aceleram e estruturas se desorganizam, é um desafio considerável. Por isso, o crescimento sustentado a 63 °C é apresentado pelos próprios pesquisadores como a maior temperatura já registrada para a vida eucariota.
A comparação com outros organismos ajuda a dimensionar o avanço. Existem eucariotas adaptados ao calor, mas geralmente em faixas mais moderadas. Um exemplo clássico é a alga vermelha Cyanidioschyzon merolae, frequentemente citada em estudos por sua tolerância a ambientes extremos e por conseguir se reproduzir em torno de 50 °C. Ultrapassar essa marca em mais de dez graus não representa apenas uma variação incremental, mas um avanço significativo em uma fronteira que parecia rígida para células complexas.
O estudo levanta hipóteses sobre como essa ameba consegue suportar tais condições. Entre as possibilidades estão o uso intensivo de proteínas “chaperonas”, que evitam o colapso de outras proteínas sob estresse térmico, membranas formadas por lipídios mais estáveis e sistemas de reparo celular acelerados. Outra implicação é mais ampla: os autores sugerem que eucariotas termófilos podem não ser tão raros quanto se pensava, mas pouco detectados devido à falta de buscas sistemáticas em ambientes adequados.
O detalhe do estado de cisto também chama atenção. Em vez de se degradar com o aumento extremo de temperatura, a ameba entra em uma espécie de estado de dormência, retomando suas funções quando as condições se tornam favoráveis. Essa estratégia é conhecida entre protistas, mas, segundo o trabalho, aqui ela permite atravessar um limiar térmico no qual a maioria dos eucariotas não sobreviveria.
Se confirmados após a revisão por pares, os resultados ampliam a compreensão sobre os limites da vida complexa na Terra e podem influenciar desde a ecologia de ambientes extremos até debates sobre a possibilidade de vida em outros planetas com condições semelhantes às de sistemas hidrotermais.

