
Descoberta em sítio arqueológico na Inglaterra revela que humanos já produziam fogo há 400 mil anos
Por Sandro Felix
Publicado em 04/01/26 às 07:46
Uma descoberta arqueológica realizada no leste da Inglaterra acaba de mudar o que se sabia sobre a história do domínio do fogo pelos seres humanos. Pesquisadores liderados pelo British Museum encontraram, no sítio arqueológico de Barnham, no condado de Suffolk, evidências da fabricação deliberada de fogo com cerca de 400 mil anos. O estudo foi publicado na revista científica Nature.
Até agora, os registros mais antigos desse tipo de prática na Europa indicavam que neandertais do norte da França produziam fogo há aproximadamente 50 mil anos. A nova descoberta antecipa esse marco em cerca de 350 mil anos, mostrando que populações humanas muito mais antigas já dominavam técnicas para acender fogo quando quisessem.
O achado ocorreu no sítio arqueológico de East Farm, localizado em Barnham, no condado de Suffolk, uma antiga área de extração de cascalho escavada desde o início do século XX. No local, os arqueólogos identificaram solos avermelhados pelo calor intenso, ferramentas de sílex rachadas por altas temperaturas e, principalmente, fragmentos de pirita de ferro — um mineral conhecido por produzir faíscas quando golpeado contra o sílex.

A presença da pirita chamou a atenção dos pesquisadores porque ela praticamente não ocorre de forma natural na região. Em análises feitas em 26 sítios arqueológicos diferentes, com mais de 121 mil pedras catalogadas, esse mineral só apareceu em Barnham. Ele estava associado a uma estrutura de fogueira que foi aquecida repetidas vezes a temperaturas superiores a 700 °C. Para os cientistas, isso indica que a pirita foi levada intencionalmente ao local como parte de um conjunto de ferramentas para produzir fogo.

Produzir fogo é diferente de apenas usá-lo
A pesquisa destaca uma diferença importante: usar fogo não é o mesmo que fabricá-lo. Há mais de um milhão de anos existem indícios de grupos humanos que aproveitavam incêndios naturais e mantinham o fogo aceso por longos períodos. Já produzir fogo do zero — criando faíscas ao bater sílex e pirita em material inflamável — exige maior conhecimento técnico e deixa vestígios mais difíceis de identificar.
Por isso, especialistas afirmam que esse tipo de prática pode ter sido mais comum do que se imagina, mas só é detectada em sítios arqueológicos muito bem preservados, como o de Barnham.
Quem acendia essas fogueiras há 400 mil anos?
Os autores do estudo explicam que os responsáveis por esse feito não eram Homo sapiens, já que nossa espécie ainda não havia se consolidado nesse período. A hipótese mais aceita é que se tratasse de neandertais arcaicos ou de seus ancestrais diretos, com base em fósseis encontrados na Inglaterra, como o crânio de Swanscombe, no vale do rio Tâmisa.
Outros pesquisadores lembram que, naquela época, a Europa era habitada por diferentes espécies humanas antigas, incluindo o Homo heidelbergensis, e que a identificação exata de cada grupo ainda está sendo estudada.
Um avanço que mudou a vida humana
A capacidade de produzir fogo sempre que necessário teve impactos profundos na evolução humana. Com o fogo, esses grupos puderam cozinhar alimentos de forma regular, enfrentar climas frios, afastar animais perigosos, endurecer madeira e até produzir colas naturais a partir de resinas.
Segundo o paleoantropólogo Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, esse domínio ampliou significativamente as áreas onde essas populações podiam viver e pode ter influenciado mudanças importantes na saúde, no cérebro e na vida social, inclusive no desenvolvimento da comunicação em torno das fogueiras.
Os pesquisadores acreditam que essa não será uma descoberta isolada. Agora, equipes científicas estão revisando outros sítios arqueológicos da Europa em busca de solos queimados ou fragmentos de pirita que possam ter passado despercebidos. Novas evidências podem mostrar que a fabricação do fogo surgiu muito antes — e foi mais difundida — do que se imaginava.


