Nova pesquisa sugere que erupção do Vesúvio pode ter ocorrido em outubro, e não em agosto, como se acreditava

Nova pesquisa sugere que erupção do Vesúvio pode ter ocorrido em outubro, e não em agosto, como se acreditava

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Publicado em 18/12/25 às 16:08

Pompeia, a cidade romana destruída pela erupção do Monte Vesúvio, pode ter encontrado seu trágico fim em um dia frio de outono — e não no auge do verão, como há séculos se acredita. Uma nova análise dos moldes de gesso feitos a partir dos corpos das vítimas sugere que os habitantes da cidade estavam vestidos com roupas pesadas de lã no momento da catástrofe, o que levanta dúvidas sobre a data tradicionalmente aceita da erupção: 24 de agosto do ano 79 d.C.

Segundo o relato do escritor romano Plínio, o Jovem — a única testemunha ocular cujos registros chegaram até nós —, as primeiras explosões do Vesúvio ocorreram por volta do meio-dia daquele dia de agosto. Ele descreveu a tragédia em uma carta enviada anos depois ao político e historiador Tácito, um dos documentos mais preciosos sobre o desastre que soterrou Pompeia e Herculano sob cinzas e pedras vulcânicas.

Contudo, novas descobertas feitas por arqueólogos colocam em xeque essa cronologia. Um estudo recente, liderado pelo arqueólogo Llorenç Alapont, analisou 14 moldes de vítimas encontrados em Pompeia, revelando detalhes impressionantes sobre suas vestimentas.

Podemos afirmar como essas pessoas estavam vestidas em um dia específico da história, disse Alapont em comunicado.

Identificamos o tipo de tecido e a trama das fibras — espessa e pesada. A maioria das vítimas usava duas peças: uma túnica e um manto, ambos de lã grossa.

Moldes de gesso das vítimas de pompéiaMoldes de gesso das vítimas mostram exatamente o que elas vestiam no Dia do Juízo Final / Imagem: Universidade de Valência

Embora o uso da lã fosse comum no Império Romano, o fato de as roupas serem tão pesadas levanta questionamentos. Por que usar trajes espessos em pleno verão do Mediterrâneo? Para os pesquisadores, há duas hipóteses principais: os moradores poderiam estar tentando se proteger do calor e dos gases do vulcão — embora não se saiba se tiveram tempo para isso —, ou o episódio, na verdade, ocorreu em uma estação mais fria, como o outono ou até o início do inverno.

Curiosamente, o estudo mostra que o mesmo tipo de vestimenta foi encontrado tanto em pessoas que morreram dentro das casas quanto nas que pereceram nas ruas, indicando que o uso das roupas grossas era generalizado no momento da tragédia. Essa constatação reforça a suspeita de que o dia do desastre pode ter sido bem diferente do descrito por Plínio.

Outros indícios também apontam para essa possibilidade. Uma inscrição feita a carvão em uma das paredes de Pompeia menciona a data de 17 de outubro, e por ser um material efêmero, dificilmente teria permanecido legível por mais de alguns dias antes da erupção. Isso levou alguns historiadores a sugerirem que o evento pode ter ocorrido, na verdade, em 24 de outubro de 79 d.C.

Além disso, foram encontrados restos de castanhas, vinho fermentado e lareiras acesas — todos elementos típicos do outono romano —, reforçando a hipótese de que a catástrofe aconteceu meses depois do que se supunha.

Mesmo assim, a comunidade acadêmica permanece cautelosa. O estudo ainda não foi revisado por pares nem publicado oficialmente, e não há fontes históricas diretas que confirmem uma mudança na data. Por enquanto, a data de 24 de agosto continua sendo a mais amplamente aceita, conforme os escritos de Plínio, o Jovem.

O debate, no entanto, está longe de terminar. Se confirmada, a nova hipótese não apenas reescreveria um dos eventos mais conhecidos da Antiguidade, mas também revelaria detalhes inéditos sobre o cotidiano dos pompeianos em seus últimos momentos — como o clima, as práticas sazonais e até os hábitos de vestuário de uma sociedade que pereceu, mas deixou sua história impressa nas cinzas.

Enquanto a ciência não chega a uma conclusão definitiva, uma coisa é certa: os habitantes de Pompeia podem ter enfrentado seu destino vestindo lã pesada — e talvez tremendo, não apenas de medo, mas também de frio.

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