
Geleira “do Juízo Final” registra centenas de pequenos tremores e acende alerta global sobre o avanço do derretimento na Antártida
Por Sandro Felix
Publicado em 15/12/25 às 16:07
Centenas de pequenos tremores estão atingindo a geleira Thwaites, um dos maiores da Antártida Ocidental, conhecido popularmente como a “geleira do Juízo Final”. A descoberta, feita por equipes internacionais de pesquisadores, tem causado preocupação entre climatologistas e oceanógrafos, pois revela um comportamento inédito e potencialmente alarmante deste colosso gelado, que já responde por cerca de 4% do aumento global do nível do mar.
Estima-se que a geleira Thwaites perca cerca de 50 bilhões de toneladas de gelo por ano, uma taxa que, segundo especialistas, é suficiente para alterar significativamente o equilíbrio climático do planeta. O que torna os novos dados ainda mais surpreendentes é que os tremores detectados não têm relação com placas tectônicas nem com atividade vulcânica.
Os registros sísmicos apontam para um fenômeno próprio do movimento do gelo: pequenos deslizamentos bruscos sobre o leito rochoso, conhecidos como stick-slip. Nesses eventos, o glaciar acumula tensão interna até liberar energia de forma repentina, fazendo com que o gelo se mova de maneira irregular. Para os instrumentos sísmicos, cada uma dessas liberações aparece como um microterremoto.

Movimento imprevisível e influência do aquecimento global
As análises indicam que a maioria desses sismos ocorre na região onde a geleira encontra o oceano, justamente no ponto de contato com águas cada vez mais quentes. Essa água mais morna desgasta a base da geleira, provoca fraturas internas e facilita o deslizamento repentino de grandes massas de gelo.
O resultado é um padrão de atividade irregular, com períodos de calmaria alternando-se com episódios de movimento acelerado. Segundo os cientistas, esse comportamento mostra que o Thwaites não se desloca de forma constante, mas responde a uma combinação de forças internas e externas — uma característica que o torna especialmente vulnerável às mudanças climáticas.
“Esses tremores são sinais de que a geleira está em transformação constante”, afirmam os pesquisadores. “É um sistema vivo, que reage de maneira imprevisível conforme o ambiente ao redor se aquece.”
Risco global: impacto no nível dos oceanos
A geleira Thwaites funciona como uma espécie de barreira natural, que retém enormes quantidades de gelo no interior da Antártida Ocidental. Caso essa estrutura perca estabilidade, o fluxo de gelo em direção ao mar pode acelerar de forma irreversível, elevando drasticamente o nível dos oceanos.
Estudos apontam que o colapso total da geleira poderia elevar o nível do mar em até três metros, um cenário com potencial de afetar milhões de pessoas que vivem em regiões costeiras ao redor do mundo.
Pesquisas recentes alertam que um aumento de apenas 50 centímetros no nível do mar já seria suficiente para inundar cerca de três milhões de edifícios no hemisfério sul — um dado que reforça o tamanho do risco caso a geleira entre em colapso completo.
Um sistema frágil que exige vigilância constante
Apesar das descobertas preocupantes, os especialistas ressaltam que não há indícios de que o Thwaites esteja prestes a desmoronar. O que os dados revelam é que a geleira é um sistema dinâmico, instável e extremamente sensível ao aumento das temperaturas.
Cada novo tremor registrado ajuda a refinar os modelos de previsão climática e permite compreender melhor como o aquecimento global está afetando as estruturas de gelo da Antártida. Esse monitoramento contínuo é considerado essencial para antecipar riscos e planejar políticas de adaptação em escala global.
Para os cientistas, o apelido de “geleira do Juízo Final” não é um exagero, mas um símbolo da fragilidade do sistema climático diante das mudanças provocadas pelo ser humano. O comportamento do Thwaites é um alerta direto sobre as consequências do aquecimento global — e mostra que o que acontece nos polos pode ter repercussões dramáticas em todo o planeta.
Silencioso e distante, o glaciar tornou-se um dos símbolos mais marcantes da crise climática atual.


