
Fim da era dos celulares ultrafinos: fracassos de Samsung e Apple levam indústria a repensar o design dos smartphones
Por Sandro Felix
Publicado em 28/11/25 às 16:04
Durante mais de uma década, a indústria de tecnologia perseguiu um ideal quase obsessivo: o do smartphone ultrafino, símbolo de sofisticação, leveza e inovação. No entanto, após anos de refinamento e marketing centrado em milímetros, o setor parece ter atingido o limite desse conceito. O fracasso comercial do Samsung Galaxy S25 Edge e o desempenho decepcionante do iPhone Air colocaram em xeque a estratégia das principais fabricantes globais.
O que começou como uma corrida estética terminou em uma crise técnica e comercial. Os consumidores, antes fascinados por aparelhos elegantes e minimalistas, agora priorizam bateria, potência e qualidade de câmera. A consequência direta é uma reviravolta nas prioridades da indústria, que já se move para abandonar o design ultrafino em favor de soluções mais equilibradas.
O fim da “era delgada”
Segundo informações da publicação asiática DIGITIMES, marcas como Xiaomi, Oppo e Vivo já encerraram seus projetos de smartphones ultrafinos. Os componentes e recursos destinados a essas linhas foram redirecionados para modelos tradicionais, nos quais a demanda permanece estável e os lucros, mais previsíveis.
A decisão foi tomada após o desempenho fraco de aparelhos tidos como vitrine tecnológica. O Galaxy S25 Edge, lançado com grande expectativa no início de 2025, apresentou problemas de superaquecimento e baixa autonomia. O iPhone Air, por sua vez, lançado em setembro pelo preço de 1.999 dólares, decepcionou consumidores e críticos. Com desempenho inferior ao do iPhone 17 Pro — que custa apenas 100 dólares a mais —, o modelo ficou conhecido por sua fragilidade e custo-benefício desfavorável.
Chegamos a um ponto em que a redução de espessura passou a comprometer demais o uso cotidiano, afirmou um executivo de uma fabricante asiática sob condição de anonimato.
Os consumidores querem um aparelho bonito, sim, mas ninguém aceita mais ficar sem bateria no meio do dia.
Limites técnicos e desinteresse do público
Fabricar um celular com menos de seis milímetros de espessura exige sacrifícios consideráveis. A redução extrema do espaço interno obriga os engenheiros a diminuir a capacidade da bateria, limitar o sistema de refrigeração e optar por módulos de câmera mais simples.
Nos casos do Galaxy S25 Edge e do iPhone Air, essas escolhas se mostraram desastrosas. Embora visualmente impressionantes, os aparelhos sofreram críticas severas pela autonomia reduzida e desempenho inconsistente. As redes sociais rapidamente amplificaram as reclamações, com usuários relatando que seus dispositivos superaqueciam com tarefas básicas e que a duração da bateria mal chegava a um dia completo.
A percepção de que a estética havia ultrapassado a funcionalidade fez com que o entusiasmo inicial se transformasse em desconfiança. Vendas abaixo do esperado e margens comprimidas obrigaram as empresas a agir rapidamente.
Efeitos em cascata na cadeia de produção
A mudança de rumo não se limitou aos departamentos de design. Toda a cadeia de produção foi afetada. A Foxconn, principal montadora da Apple na China, já desmontou a linha dedicada ao iPhone Air, enquanto a Luxshare, outro fornecedor-chave, encerrou as atividades relacionadas ao modelo em outubro deste ano.
A Samsung, por sua vez, anunciou oficialmente o cancelamento do Galaxy S26 Edge, eliminando qualquer possibilidade de continuação da linha ultrafina. A decisão marca o fim de uma estratégia que, há poucos anos, era considerada o futuro do mercado premium.
Huawei segue na contramão
Enquanto as líderes do setor recuam, a Huawei tenta reinventar o conceito de leveza com inovação tecnológica. A empresa apresentou, no início de novembro, o Mate 70 Air, equipado com uma bateria de silício-carbono de 6.500 mAh — capacidade impressionante para um aparelho com apenas 6,6 milímetros de espessura.
Segundo analistas, o modelo representa uma aposta ousada em materiais de alta densidade energética, capazes de oferecer mais autonomia sem aumentar o tamanho do dispositivo. Ainda é cedo, contudo, para saber se o público verá o Mate 70 Air como uma exceção bem-sucedida ou apenas mais um capítulo de uma tendência fadada ao fracasso.
O mercado muda de prioridades
A virada de tendência parece definitiva. As fabricantes agora buscam equilíbrio entre design e desempenho, priorizando aparelhos que entreguem bateria duradoura, boa refrigeração e câmeras potentes. O novo mantra da indústria, segundo analistas, é simples: “não basta ser fino — tem que funcionar bem”.
Com o avanço das tecnologias de carregamento rápido, inteligência artificial embarcada e fotografia computacional, o apelo puramente visual perdeu força. Os consumidores mostram-se cada vez mais racionais na hora da compra, avaliando especificações e custo-benefício em vez de seguir modismos.
A “era dos celulares ultrafinos”, que prometia redefinir o design móvel, termina antes mesmo de se consolidar. O recado do mercado é claro: a estética sozinha já não vende smartphones. Potência, autonomia e durabilidade voltam a ocupar o centro da cena.



