
Arqueólogos descobrem no deserto da Arábia Saudita o mais antigo conjunto de arte rupestre do país
Por Sandro Felix
Publicado em 26/10/25 às 06:54
Um estudo publicado na revista Nature Communications revelou uma descoberta impressionante no sul do deserto de Nefud, na Arábia Saudita. Um grupo internacional de arqueólogos identificou 62 painéis com 176 gravuras rupestres, das quais 130 retratam animais em tamanho real — principalmente camelos, mas também íbex, gazelas, equídeos (animais da família dos cavalos) e até um uro, espécie de boi selvagem já extinta.
As figuras, talhadas com realismo notável, estão distribuídas entre os maciços de Jebel Arnaan, Jebel Mleiha e Jebel Misma e alcançam proporções monumentais. Algumas composições chegam a mais de 20 metros de extensão e estão localizadas a até 39 metros de altura, gravadas em paredões rochosos íngremes de difícil acesso.
Segundo o estudo, essas obras foram produzidas entre 12.800 e 11.400 anos atrás, o que as torna o registro mais antigo conhecido de arte rupestre monumental na Arábia. A descoberta altera significativamente o entendimento sobre a ocupação humana na Península Arábica, mostrando que grupos humanos habitaram e transformaram o interior árido da região milhares de anos antes do que se imaginava.

Camelos de pedra no início do Holoceno
Para determinar a idade das gravuras, os pesquisadores combinaram prospecções arqueológicas, escavações e datações por luminiscência opticamente estimulada (OSL), aplicadas em antigos sedimentos lacustres.
Em Jebel Arnaan, duas amostras de OSL retiradas sob um painel com camelos indicaram idades de 12,8 ± 1,1 mil anos e 12,2 ± 1,4 mil anos. Além disso, uma fogueira datada por radiocarbono em 11,44 ± 0,18 mil anos confirmou a presença humana no mesmo período.
Os resultados indicam que esses locais funcionaram como pontos de passagem e de memória cultural em um ambiente que, após o fim da última Idade do Gelo, voltava a ter água de forma sazonal. Em Arnaan, os painéis seguem o curso de um antigo rio que ainda hoje forma pequenas lagoas após chuvas ocasionais; já em Misma, as figuras se alinham à antiga linha de praia de um lago hoje seco.

Monumentos da água e do movimento
De acordo com os autores, o tamanho e a disposição das figuras podem ter servido como marcos visuais que indicavam rotas até fontes de água, funcionando também como símbolos identitários e monumentos duradouros para grupos nômades. Alguns camelos ultrapassam três metros de comprimento e foram talhados em paredões elevados, o que exigiu grande habilidade técnica e trabalho em condições extremas.
O estudo ressalta que essas representações não apenas antecipam em milênios a ocupação contínua do interior da Arábia, mas também demonstram um nível artístico e técnico surpreendente. Agências como Reuters, Associated Press e Smithsonian destacaram o realismo, a escala e a complexidade das cenas como características únicas desse conjunto rupestre, que se diferencia de outros sítios neolíticos da região.
Um mapa pré-histórico e um desafio de conservação
Além do impacto visual, a pesquisa traz informações valiosas sobre um período decisivo da história ambiental e humana: a transição entre o Pleistoceno e o Holoceno. Os cientistas sugerem que uma rede de rotas ligadas a antigos cursos de água doce pode ter conectado o deserto de Nefud ao Levante, facilitando movimentos humanos e intercâmbios simbólicos ao longo de milênios.
Por sua escala, antiguidade e integração à paisagem, os chamados “camelos de Nefud” são hoje considerados um marco da arte pré-histórica mundial. Mais do que representações de animais, essas gravuras registram a memória de povos que aprenderam a viver e se mover em um dos ambientes mais áridos do planeta.
Os especialistas alertam, no entanto, para a necessidade urgente de proteger e conservar os painéis, ameaçados pela erosão natural e por possíveis danos humanos. Segundo os autores, o sítio é um testemunho raro da criatividade, da técnica e da resistência humanas nas origens do Holoceno.
