
Minerais Raros | O “Novo Ouro” que coloca o Brasil no tabuleiro global
Por Sandro Felix
Publicado em 03/08/25 às 07:36
A nova era industrial que molda o século XXI encontrou nos minerais raros um insumo tão essencial quanto estratégico. Cada smartphone, carro elétrico, turbina eólica ou míssil de alta precisão carrega, em sua estrutura, vestígios quase invisíveis de elementos que até pouco tempo atrás passavam despercebidos. Hoje, são considerados mais valiosos do que o ouro. No centro desta transformação, o Brasil, dono de uma das maiores reservas do mundo, desponta como protagonista de uma corrida global por poder, autonomia tecnológica e sustentabilidade econômica.
Esses minerais, agrupados sob a designação de terras raras, somam 17 elementos químicos cruciais para a transição energética, a revolução digital e a indústria de defesa. A demanda por eles explodiu nas últimas décadas e, com ela, a concentração de sua produção em solo chinês — responsável por mais de 80% do suprimento mundial — acendeu alertas em governos, empresas e organismos internacionais. Nesse contexto, o Brasil surge como uma alternativa geopoliticamente neutra e ambientalmente promissora, com reservas estimadas entre 21 e 25 milhões de toneladas.
No entanto, transformar essa riqueza geológica em protagonismo real requer mais que solo fértil. Atualmente, a produção brasileira ainda é embrionária, com apenas uma mina comercial em operação, localizada em Minaçu, Goiás. A Serra Verde Pesquisa e Mineração, responsável pela unidade, iniciou a exploração em depósitos de argila iônica, tipo raro fora da China, que permite métodos de extração menos agressivos. A expectativa é alcançar uma produção de 5 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2026, um salto considerável frente às modestas 20 toneladas processadas em 2024.

Outros estados, como Minas Gerais, Bahia e Piauí, já abrigam projetos exploratórios avançados, muitos deles liderados por companhias internacionais em busca de diversificação de risco. A geopolítica mineral vive uma reorganização acelerada, na qual o Brasil aparece como peça-chave. Propostas de construção de refinarias nacionais, incentivos estatais, parcerias com universidades estrangeiras e acordos bilaterais com países da OCDE e do BRICS se multiplicam.
Em paralelo, a estrutura política começa a se mover. Em Brasília, tramitam projetos de lei e decretos para acelerar o licenciamento ambiental, estimular a industrialização local e garantir controle soberano sobre o recurso. O objetivo é claro: evitar que o país repita o ciclo histórico de exportador de matéria-prima bruta, perdendo o valor agregado que transforma minerais em inovação.

Apesar das promessas, os desafios são vastos. A cadeia produtiva exige altos investimentos em tecnologia, capacidade de refino e mão de obra especializada. O custo de produção ainda é três vezes maior que o chinês, e a ausência de infraestrutura logística compromete a competitividade. Mesmo assim, a aposta do setor público e privado é que, com a crescente pressão por fontes confiáveis e sustentáveis de suprimento, o Brasil será inevitavelmente chamado a desempenhar um papel de liderança.
Mais do que uma oportunidade econômica, os minerais raros representam uma chance histórica de reposicionamento internacional. A disputa por eles ultrapassa a lógica de mercado: envolve segurança nacional, hegemonia digital e sobrevivência climática. E, nessa arena complexa, o Brasil, detentor de vastas jazidas, capital humano qualificado e legitimidade ambiental, pode se tornar — se agir a tempo — não apenas fornecedor, mas potência global da nova era tecnológica.
