
Série de Far Cry enfrenta críticas por se distanciar da franquia da Ubisoft
Por Sandro Felix
Publicado em 28/04/26 às 06:45
A futura série baseada na franquia de games Far Cry ainda não teve sequer um teaser divulgado, mas já provocou um debate intenso entre fãs e profissionais da indústria sobre o verdadeiro significado de adaptar videogames para a televisão. O projeto está nas mãos do roteirista e produtor norte-americano Noah Hawley, conhecido por trabalhos nas séries Fargo, Legion e Alien: Earth. E foi justamente uma declaração recente dele que acendeu a discussão.
Em entrevista ao site especializado Deadline, Hawley afirmou que não pretende adaptar diretamente nenhum dos jogos da franquia desenvolvida pela Ubisoft. Em vez disso, ele quer usar o universo de Far Cry como ponto de partida para criar histórias inéditas, mantendo apenas os elementos conceituais que definem a série, como ambientes exóticos, personagens inéditos e a transformação gradual de pessoas comuns em figuras cada vez mais violentas.
Não estou adaptando especificamente nenhum dos jogos que já foram lançados. Quero dialogar com a franquia e construir o que considero ser uma história de Far Cry, explicou o criador.
A proposta, ao menos no papel, segue a própria lógica da franquia nos videogames, que costuma adotar uma estrutura antológica — com novos cenários e personagens a cada título. Quando a série foi anunciada oficialmente, a Ubisoft já indicava essa direção, com temporadas independentes e ambientações variadas. Também foi confirmado que o ator e produtor Rob McElhenney participará do projeto como produtor executivo e integrante do elenco. A série será exibida pelo canal FX, com distribuição nos Estados Unidos pelo Hulu e internacionalmente pelo Disney+.
Apesar disso, parte do público recebeu as declarações com desconfiança. O ponto mais sensível foi a visão de Hawley sobre a narrativa nos videogames. Segundo ele, o avanço real desse tipo de mídia costuma acontecer por meio da jogabilidade, enquanto o drama humano frequentemente fica restrito a cenas que podem ser ignoradas pelo jogador. Para muitos fãs, essa leitura simplifica demais a experiência de títulos como Far Cry, conhecidos por vilões marcantes, atmosferas densas e reviravoltas narrativas memoráveis.
A reação negativa não ficou restrita ao público. O diretor criativo de Far Cry 4, Alex Hutchinson, comentou o assunto em sua página no LinkedIn, demonstrando incômodo com a abordagem.
Isso está me irritando um pouco. E olha que eu gosto do trabalho do Noah Hawley, escreveu.
O debate, no entanto, vai além de uma simples divergência de opinião. A discussão revela uma questão central nas adaptações contemporâneas: o que deve ser considerado essencial ao transportar uma obra de uma mídia para outra. No caso de Far Cry, a dúvida gira em torno de priorizar fidelidade a histórias específicas dos jogos ou capturar o espírito geral da franquia.
Enquanto algumas adaptações recentes têm apostado na reprodução fiel do material original, outras seguem caminhos mais autorais, buscando reinterpretar universos conhecidos sob novas perspectivas. A série de Far Cry, ao que tudo indica, deve se encaixar nesse segundo grupo — o que pode tanto ampliar suas possibilidades criativas quanto afastar parte do público mais apegado aos jogos.
Sem data de estreia confirmada e ainda envolta em mistério, a produção continua gerando expectativas — e controvérsias — mesmo antes de mostrar suas primeiras imagens.

