Youtuber afirma ter recriado fórmula da Coca-Cola com métodos de laboratório

Youtuber afirma ter recriado fórmula da Coca-Cola com métodos de laboratório

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Publicado em 13/01/26 às 16:10

Durante mais de um século, a “fórmula secreta” da Coca-Cola ocupou um espaço entre o marketing e a lenda. Nesta semana, o tema voltou ao debate por um caminho inesperado: um youtuber norte-americano conhecido como LabCoatz afirma ter obtido uma réplica “quase perfeita” da bebida após um ano de testes de laboratório, comparações às cegas e estudo aprofundado de química orgânica. A história ganhou repercussão nas redes sociais e em sites especializados por apostar menos na nostalgia e mais no método científico.

Segundo o criador de conteúdo, a proposta foi tratar o refrigerante como uma amostra analítica, e não como uma simples imitação caseira. Em vídeo e em resumos que circularam em blogs de tecnologia e ciência, LabCoatz relata ter recorrido à espectrometria de massas, combinada com técnicas de separação como a cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS), para identificar compostos presentes na Coca-Cola comercializada. A partir dessa análise, buscou reconstruir o perfil sensorial da bebida com ingredientes acessíveis. A lógica, explica, é típica de laboratório: ao reproduzir os principais “picos” químicos, o paladar tende a reconhecer o conjunto.

Um dos pontos que mais chamaram atenção foi a ênfase nos traços de certos componentes, presentes em quantidades mínimas, mas com grande impacto no sabor. Após testar combinações consideradas clássicas — como cítricos, baunilha e especiarias —, o youtuber afirma que a virada ocorreu ao identificar sinais de vinagre, na forma de ácido acético, e de taninos. Esses elementos, adicionados em doses muito pequenas, teriam sido decisivos para alcançar o toque ácido característico da bebida. Outros relatos sobre o experimento mencionam ainda óleos essenciais frequentemente associados ao chamado “Merchandise 7X”, conjunto aromático que integra a mitologia em torno do xarope original da marca.

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Especialistas lembram, porém, que detectar moléculas não equivale a revelar uma receita. Na ciência do aroma, a intensidade percebida nem sempre está relacionada à quantidade de uma substância, mas à sua potência sensorial. Estudos acadêmicos sobre bebidas do tipo cola já identificaram, por meio de cromatografia, olfatometria e GC-MS, compostos aromáticos-chave como o eugenol, associado a notas de cravo e especiarias, e a cumarina, de perfil doce e herbáceo. Presentes em concentrações muito baixas, esses elementos podem dominar a percepção do sabor final. Em outras palavras, o gosto característico de “cola” resulta de uma combinação complexa de traços químicos, e não de poucos ingredientes em destaque.

Além do aroma, outros fatores influenciam o resultado final. O tipo de ácido utilizado, como o ácido fosfórico, o nível de dulçor, a presença de cafeína, a carbonatação e até a forma como o corante caramelo se integra à mistura interferem na experiência sensorial. Técnicas como a ressonância magnética nuclear (RMN) já foram empregadas para diferenciar colas disponíveis no mercado e obter informações qualitativas e quantitativas sobre sua composição, justamente porque pequenas variações nesses elementos podem alterar de forma perceptível o produto. O consenso entre pesquisadores é que é possível chegar muito perto do original — e ainda assim ficar a um “milímetro sensorial” de distância.

No campo jurídico, a discussão também tem nuances importantes. A fórmula da Coca-Cola é protegida como segredo comercial. Em linhas gerais, a legislação não proíbe que alguém desenvolva um produto semelhante por meio de engenharia reversa ou pesquisa independente; o que é vedado é a obtenção da informação por meios ilícitos, como roubo, violação de confidencialidade ou acesso indevido a documentos internos. Assim, embora o vídeo de LabCoatz não comprove o desvendamento do segredo corporativo da empresa, ele ilustra uma distinção reconhecida pelo direito: reproduzir um perfil sensorial com base em análises próprias não é o mesmo que se apropriar de informações confidenciais.

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