
De ambição global a deserto marítimo: fracassa o megaprojeto de ilhas artificiais de Dubai
Por Sandro Felix
Publicado em 24/11/25 às 17:09
Anunciado com pompa no início dos anos 2000, o projeto The World Islands, em Dubai, prometia literalmente colocar o mundo aos pés dos bilionários. O plano era ousado: mais de 300 ilhas artificiais dispostas na forma do mapa-múndi, cercadas pelas águas do Golfo Pérsico, destinadas a abrigar resorts de luxo, mansões exclusivas e clubes privados. Duas décadas depois, porém, o cenário aéreo mostra algo bem diferente: a maior parte do arquipélago segue sendo montes de areia sem construção — um símbolo dos excessos e limites da megalomania imobiliária que marcou os primeiros anos do século XXI nos Emirados Árabes Unidos.

Lançado oficialmente em 2003 pela incorporadora Nakheel, a mesma responsável pela icônica Palm Jumeirah, The World foi apresentado como o próximo passo na transformação de Dubai em um “paraíso do futuro”. As obras começaram no mesmo ano, com extensas dragagens e barreiras de rochas que, até 2008, já haviam moldado o contorno do arquipélago. Segundo registros da época, cerca de 60% das ilhas haviam sido vendidas a investidores privados antes mesmo de receberem qualquer infraestrutura. Mas a festa durou pouco: com a chegada da crise financeira global de 2008, o crédito desapareceu e os projetos foram congelados.
A crise transformou o que seria um cartão-postal global em um monumento à especulação interrompida. Com o colapso do mercado imobiliário, as obras cessaram e The World virou sinônimo de promessa frustrada. Relatórios posteriores apontaram problemas graves de erosão e instabilidade do solo, forçando a Nakheel a investir em manutenções emergenciais para evitar que parte das ilhas literalmente afundasse.
Em meio às críticas, a empresa negava que o arquipélago estivesse “desaparecendo”, mas reconhecia a necessidade de constante reforço do terreno — um desafio técnico e financeiro gigantesco. Além da erosão, surgiram obstáculos práticos: como levar energia, água potável, esgoto e transporte regular para centenas de pequenas ilhas isoladas? A logística e o custo se mostraram proibitivos para a maioria dos investidores.
Nesse contexto, as poucas exceções ganharam destaque. A Lebanon Island foi uma das primeiras a receber eventos e festas privadas, mas durante anos permaneceu isolada. Mais recentemente, o resort Anantara World Islands, na ilha de Clarence, e o complexo turístico The Heart of Europe, composto por seis ilhas temáticas inspiradas em países europeus como Suécia, Alemanha e Mônaco, reacenderam o interesse internacional. Ainda assim, de 300 ilhas planejadas, apenas uma fração minúscula abriga construções funcionais.

Entre o fracasso e o laboratório urbano
A comparação com Palm Jumeirah é inevitável. Enquanto a ilha em forma de palmeira se consolidou como bairro residencial e polo turístico de sucesso, The World se transformou num símbolo da ambição sem limites que caracterizou a era pré-crise. Hoje, urbanistas e planejadores enxergam o projeto sob uma nova ótica: a de um laboratório urbano extremo.
“The World mostra os desafios de expandir cidades sobre bases artificiais num contexto de mudanças climáticas e elevação do nível do mar”, afirma o urbanista libanês Khaled Nassar, pesquisador em desenvolvimento costeiro na região do Golfo. Para ele, a manutenção constante e o risco de erosão tornam projetos desse tipo “economicamente e ecologicamente insustentáveis no longo prazo”.
Apesar disso, há quem tente reescrever a história. Iniciativas como The World Islands Revival e Amali Island, lideradas por descendentes do magnata Hussain Sajwani, tentam ressuscitar o projeto com mansões ultraluxuosas e novas soluções de sustentabilidade. Ainda é cedo, porém, para saber se essas investidas conseguirão romper o ciclo de abandono e transformar o arquipélago novamente em um símbolo de prosperidade.

