
Descoberta arqueológica no México revela estrutura monumental maia e desafia noções sobre hierarquia antiga
Por Sandro Felix
Publicado em 23/11/25 às 07:22
Um conjunto monumental de estruturas pré-históricas descoberto no sul do México vem mudando a forma como os arqueólogos entendem as origens da civilização maia. Conhecido como Aguada Fénix, o sítio arqueológico de aproximadamente 3 mil anos de idade pode representar uma das mais antigas expressões simbólicas do universo na Mesoamérica. A descoberta, analisada por uma equipe internacional e publicada recentemente na revista Science Advances, sugere que o local funcionava como um cosmograma — uma representação geométrica do cosmos baseada nas quatro direções cardeais.
Localizado no estado de Tabasco, na costa do Golfo do México, Aguada Fénix foi identificado em 2020 por meio de tecnologia de varredura a laser aérea (LiDAR) conduzida pela Universidade do Arizona. Sob uma densa floresta tropical, os pesquisadores encontraram uma imensa escavação em forma de cruz — chamada de cruciforme — conectada a outras estruturas semelhantes por uma complexa rede de canais. Juntas, essas construções somam mais de 3,8 milhões de metros cúbicos de volume, o equivalente a 1.500 piscinas olímpicas ou uma pirâmide e meia de Gizé.
Segundo os arqueólogos, as estruturas foram cuidadosamente organizadas de acordo com os pontos cardeais. Pigmentos coloridos encontrados nas escavações reforçam essa interpretação simbólica: azurita azul no norte, ocre amarelo no sul, malaquita verde no leste e conchas esbranquiçadas no oeste. Trata-se, de acordo com os pesquisadores, dos registros mais antigos conhecidos de uso de cores para representar direções na Mesoamérica.
Para o arqueólogo James A. Doyle, especialista independente em estudos maias, as formas cruciformes e o uso de pigmentos codificados “são a materialização física de como o mundo terreno era concebido — governado e equilibrado pelos quatro pontos cardeais”. Ele acrescenta que a presença de canais e diques revela não apenas um domínio técnico sobre o uso da água, mas também seu valor simbólico. “O azul e o verde, assim como as conchas e as oferendas de pedras verdes, refletem a importância da água tanto no plano prático quanto espiritual”, afirmou Doyle em entrevista.

Um dos aspectos mais surpreendentes do estudo é o caráter social da construção. Diferentemente das grandes cidades maias posteriores, que exibem palácios, túmulos e templos dedicados a uma elite governante, Aguada Fénix não apresenta sinais de hierarquia centralizada. Os autores sugerem que a estrutura foi erguida por uma comunidade igualitária e cooperativa, talvez com base em rituais coletivos, observações astronômicas e controle de calendários. Estima-se que cerca de mil trabalhadores tenham participado da escavação e modelagem do terreno durante vários anos.
Essas são algumas das maiores estruturas já construídas na região, destacou Doyle.
É notável imaginar que um grupo sem líderes aparentes tenha se organizado para criar algo dessa magnitude.
Durante as escavações, os arqueólogos também encontraram esculturas de jade, em sua maioria representando animais, mas uma delas se destaca: a figura de uma mulher dando à luz. Segundo os pesquisadores, essas obras não parecem exaltar deuses ou governantes, mas sim eventos naturais e aspectos cotidianos da vida.

Para Doyle, a chamada “mulher de jade” abre novas possibilidades de interpretação sobre o papel social das mulheres na antiguidade. “E se ela tivesse sido uma líder forte, como sabemos que ocorreu em várias sociedades posteriores da Mesoamérica e dos Andes Centrais?”, questiona o especialista. “A compreensão sobre desigualdades na distribuição de bens ou influência certamente se tornará mais clara à medida que as escavações avancem.”
Os pesquisadores acreditam que Aguada Fénix ainda guarda respostas fundamentais sobre como sociedades complexas puderam emergir sem a presença de elites dominantes. Mais do que um monumento arqueológico, o sítio se apresenta como um símbolo de cooperação, igualdade e visão cósmica em um período crucial da história humana.
A equipe planeja continuar as escavações nos próximos anos para ampliar o entendimento sobre o papel social, religioso e ambiental de Aguada Fénix, um legado que, segundo Doyle, “nos obriga a repensar o que realmente significa civilização”.
