Recuo recorde da geleira Hektoria em apenas dois meses preocupa cientistas

Recuo recorde da geleira Hektoria em apenas dois meses preocupa cientistas

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Publicado em 10/11/25 às 16:20

O glaciar Hektoria, localizado na Península Oriental da Antártida, tornou-se recentemente o centro das atenções da comunidade científica após registrar um dos recuos mais rápidos já documentados na era moderna. Um estudo conduzido pela Universidade do Colorado Boulder, publicado na revista Nature Geoscience, revelou que entre novembro e dezembro de 2022 o glaciar retrocedeu cerca de 8 quilômetros em apenas dois meses — e aproximadamente 25 quilômetros entre janeiro de 2022 e março de 2023. Trata-se do recuo mais veloz já registrado em tempos contemporâneos, comparável a processos de degelo que antes se julgavam restritos a períodos geológicos passados.

Hektoria

Os pesquisadores destacam que o fenômeno não foi causado por uma onda de calor repentina nem por uma anomalia oceânica específica. O verdadeiro gatilho foi a topografia subjacente: Hektoria repousava sobre uma “planície de gelo”, uma superfície de rocha relativamente plana situada abaixo do nível do mar. À medida que o glaciar foi afinando, grandes trechos de sua base passaram a flutuar quase simultaneamente, perdendo o contato de sustentação com o fundo marinho. Essa perda de apoio — conhecida como grounding — desencadeou um processo de fraturamento e desprendimento acelerado (calving), fragmentando o glaciar a um ritmo vertiginoso.

Segundo os cientistas, trata-se de um mecanismo distinto do derretimento superficial contínuo. Neste caso, a própria geometria do glaciar e do relevo oceânico funcionou como um interruptor: bastou atingir um ponto crítico de espessura para que a instabilidade se espalhasse rapidamente, sem necessidade de mudanças extremas na temperatura atmosférica ou nas correntes marinhas.

A vulnerabilidade de Hektoria tem raízes históricas. Após o colapso da plataforma de gelo Larsen B, em 2002, os glaciares que alimentavam essa barreira — entre eles o próprio Hektoria — aceleraram seu fluxo durante cerca de uma década. Com o tempo, a presença de gelo marinho costeiro atuou como um freio natural, limitando o avanço do processo. No entanto, a perda desse “freio” em 2022 deixou o sistema exposto. Sem a resistência da barreira, o glaciar ficou livre para responder às tensões internas e à perda de sustentação, culminando no colapso abrupto agora detalhado por meio de imagens de satélite e outros dados remotos.

glaciar HektoriaImagens de satélite mostrando o tamanho do recuo do glaciar Hektoria de 2021 à 2025.

O estudo é considerado um marco por dois motivos principais. Primeiro, confirma que as chamadas planícies de gelo — superfícies planas sob os glaciares onde a base pode se desprender de forma súbita — representam pontos frágeis que devem ser mapeados e monitorados de perto. Elas permitem transições muito rápidas, mesmo sem alterações extremas no clima. Segundo, o trabalho demonstra que mecanismos de retração de centenas de metros por dia, antes conhecidos apenas no registro do fim da última era glacial, ainda podem ocorrer atualmente quando as condições geométricas e o afinamento do gelo ultrapassam um limiar crítico.

Embora o colapso de Hektoria, com uma área estimada de cerca de 300 quilômetros quadrados, não seja suficiente para provocar impactos imediatos no nível global do mar, o episódio serve como alerta. Caso padrões semelhantes se repitam em glaciares de maior porte, que também repousam sobre planícies submersas, o aumento do nível do mar poderá acelerar muito antes do previsto.

Para os especialistas, o episódio reforça a necessidade urgente de identificar outras regiões da Antártida com características semelhantes e avaliar o grau de afinamento de seus glaciares. Esse mapeamento é essencial para aprimorar as projeções de risco tanto regionais quanto globais. O recuo recorde do Hektoria, afirmam os autores, não é apenas um sinal de vulnerabilidade local, mas uma janela para compreender como a geometria oculta sob o gelo pode decidir o destino das plataformas antárticas nas próximas décadas.

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