Astrônomos detectam gigantesca “onda” atravessando a Via Láctea

Astrônomos detectam gigantesca “onda” atravessando a Via Láctea

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Publicado em 30/09/25 às 16:17

Astrônomos encontraram novas evidências de que uma imensa ondulação atravessa o disco da Via Láctea, provocando movimentos em massa entre as estrelas. O fenômeno foi comparado a torcedores em um estádio fazendo o famoso “ola”.

O estudo, publicado na revista Astronomy & Astrophysics, analisou dados obtidos pelo observatório espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA). A pesquisa mostra que estrelas localizadas nas bordas do disco galáctico se movem em padrões ondulatórios, revelando uma espécie de “grande onda” que percorre nossa galáxia.

ondulação na via lacteaNa imagem da esquerda, observamos a nossa galáxia de cima. À direita, vemos por meio de uma fatia vertical da galáxia e observamos a onda de lado. Nesta perspectiva, o Sol está localizado entre a linha de visão e o bojo da galáxia. Esta perspectiva também revela que o lado “esquerdo” da galáxia se curva para cima e o outro lado se curva para baixo (esta é a deformação do disco). A onda recém-descoberta é indicada em vermelho e azul: nas áreas vermelhas, as estrelas estão acima, e nas áreas azuis, as estrelas estão abaixo do disco deformado da galáxia / Imagem: ESA/Gaia/DPAC, S. Payne-Wardenaar, E. Poggio et al (2025)

Segundo os cientistas, a Via Láctea, embora seja uma galáxia espiral, não possui um disco plano perfeito. Desde a década de 1950 já se sabia que o disco é deformado, mas as observações recentes do Gaia permitiram mapear essas estruturas com precisão inédita. Além da conhecida curvatura, foram identificadas pequenas ondulações, semelhantes às irregularidades de uma chapa metálica ondulada.

A equipe, liderada por Eloisa Poggio, do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália (INAF), mediu a posição e o movimento de cerca de 17 mil estrelas gigantes jovens e 3.400 Cefeidas clássicas – estrelas variáveis usadas como “velas padrão” para determinar distâncias com alta precisão. Os resultados mostram que algumas dessas estrelas foram deslocadas verticalmente em até 650 anos-luz, valor expressivo se comparado à espessura do disco fino da galáxia, que mede aproximadamente 1.000 anos-luz.

via lacteaParte da Via Láctea vista da Terra / Imagem: Reprodução

A ondulação se estende de forma horizontal por pelo menos 30 mil anos-luz, podendo chegar a 65 mil anos-luz, cobrindo grande parte da Via Láctea. Ela não é a primeira estrutura desse tipo identificada: o Gaia já havia detectado a chamada Onda de Radcliffe, mais próxima da Terra, com 9.000 anos-luz de extensão.

Ainda não está claro o que causou esse movimento. Uma das hipóteses mais aceitas é que a onda tenha sido gerada pela interação gravitacional com uma galáxia satélite próxima. Simulações computacionais indicam que encontros desse tipo podem produzir ondulações semelhantes.

Nosso trabalho se concentrou em descrever a estrutura da galáxia. Investigar a origem dessas ondulações será o próximo passo, explicou Poggio em entrevista ao site IFLScience.

O que sabemos é que a Via Láctea é muito mais complexa e fascinante do que imaginávamos.

O observatório Gaia encerrou suas operações há alguns meses, após produzir o mapa mais detalhado já feito da Via Láctea, registrando a posição e o movimento de bilhões de estrelas. Contudo, os dados continuam a ser processados, e a quarta liberação de informações prevista pela ESA deve oferecer medições ainda mais precisas.

Esse próximo conjunto de dados trará avanços significativos para o mapeamento da galáxia e ajudará a entender melhor essas características marcantes, afirmou Johannes Sahlmann, cientista do projeto Gaia.

A descoberta da “Grande Onda” reforça como a nossa galáxia continua surpreendendo e mostra que, mesmo dentro de casa, o cosmos ainda guarda muitos mistérios a serem desvendados.

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