Coreia do Sul em colapso demográfico | Vendas de carrinhos para cachorros superam as de bebês

Coreia do Sul em colapso demográfico | Vendas de carrinhos para cachorros superam as de bebês

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Publicado em 09/04/25 às 08:52

A capital sul-coreana vive um paradoxo moderno que vem intrigando especialistas ao redor do mundo: em 2023, Seul registrou mais cães de estimação do que bebês nascidos. Enquanto os nascimentos somaram 594 mil, o número de cães oficialmente registrados ultrapassou 622 mil. A diferença, que pode parecer apenas estatística, revela uma transformação social, econômica e emocional sem precedentes.

Em uma sociedade marcada pela hiperconectividade digital, pressão profissional extrema e custos altíssimos para criar filhos, muitas famílias coreanas estão optando por adotar animais de estimação como substitutos afetivos. O fenômeno transcende a simples preferência por pets e se enraíza em dinâmicas complexas de estilo de vida, trabalho e valores sociais.

De pets a filhos: os cães ocupam um novo lugar no lar

Os cães, antes considerados animais de companhia, agora assumem o papel de membros centrais da família. Eles têm espaço no sofá, perfil nas redes sociais e, cada vez mais, presença em carrinhos — isso mesmo, carrinhos de passeio que antes eram comuns para bebês agora circulam pelos bairros de Seul levando poodles, chihuahuas e pomeranias.

cães em carrinhos de bebes na coreia do sul

A febre dos pets trouxe uma verdadeira explosão de consumo. Hoje, no país, são vendidos mais carrinhos para cães do que para crianças. Pet shops de luxo, spas para animais, alimentos gourmet e roupas sazonais compõem um mercado em expansão que movimenta bilhões de wons anualmente.

Internet e redes sociais: o berço da nova cultura pet

Essa revolução afetiva não teria alcançado tal proporção sem o papel catalisador da internet. Nas redes sociais, cães e gatos protagonizam contas com milhares de seguidores. Influencers caninos participam de campanhas publicitárias, transmissões ao vivo no Twitch mostram a rotina de animais de estimação, e hashtags dedicadas à “vida pet” dominam o Instagram sul-coreano.

A imagem do cãozinho com roupas fofas, comidinhas especiais e agenda cheia de passeios representa mais do que um estilo de vida: reflete o novo ideal de companhia. Em tempos de isolamento social e relações cada vez mais mediadas por telas, os animais oferecem uma presença real, física e emocional, preenchendo lacunas que nem sempre são supridas por relações humanas.

O peso da maternidade: por que os sul-coreanos estão adiando (ou abandonando) os filhos

A escolha por não ter filhos, ou postergá-los indefinidamente, é multifatorial. Criar uma criança na Coreia do Sul pode custar o equivalente ao valor de um apartamento em Seul. Além disso, a jornada dupla das mulheres, que enfrentam discriminação no ambiente de trabalho e dificuldade em conciliar maternidade e carreira, faz com que muitas sequer cogitem a ideia de ter filhos.

Neste contexto, adotar um pet surge como uma alternativa emocionalmente gratificante e financeiramente mais viável. O vínculo com o animal não exige licença maternidade, creche, nem planos de educação a longo prazo. A companhia é imediata e constante, sem a cobrança de expectativas sociais.

cães e bebes na coreia do sul

Mais que uma moda: o nascimento de uma nova estrutura familiar

Ainda que alguns analistas enxerguem o fenômeno como uma tendência passageira, os dados apontam para algo mais profundo: uma redefinição do conceito de família. A tradicional imagem de pai, mãe e filhos está dando lugar a novas configurações afetivas, onde os animais ocupam papel central.

Essa mudança, embora mais visível na Coreia do Sul, também se manifesta em outras nações desenvolvidas, como Japão e partes da Europa. A pergunta que paira no ar é: estamos diante de uma nova era familiar? A resposta, para muitos, já está caminhando ao lado dos donos nas ruas de Seul — em quatro patas e com coleira de grife.

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