
China responde com tarifas de 84% sobre produtos dos EUA, intensificando guerra comercial
Por Sandro Felix
Publicado em 09/04/25 às 09:18
Após a recente decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifas de até 104% sobre diversos produtos chineses, a China respondeu de forma contundente. Em comunicado oficial divulgado nesta quarta-feira (9), o Ministério do Comércio da China anunciou que elevará suas tarifas sobre uma ampla gama de produtos norte-americanos, saltando dos atuais 34% para impressionantes 84%. A medida entrará em vigor já a partir de quinta-feira, 10 de abril.
Segundo autoridades chinesas, a ação é uma resposta proporcional às medidas “unilaterais e protecionistas” adotadas por Washington, que, segundo Pequim, violam os princípios do comércio internacional e ameaçam a estabilidade da economia global. A nova tarifa chinesa deverá atingir principalmente setores estratégicos dos EUA, como o agronegócio, a indústria automobilística e a tecnologia, aumentando ainda mais a tensão entre as duas maiores potências econômicas do mundo.
O anúncio foi interpretado por analistas internacionais como um sinal claro de que a China não pretende recuar diante da pressão americana. Além disso, o endurecimento da política tarifária aumenta o risco de um ciclo prolongado de retaliações mútuas, com possíveis impactos severos para o comércio global.
Impactos para o Brasil: oportunidades e riscos
Embora o Brasil não esteja diretamente envolvido nessa disputa, os desdobramentos da guerra comercial entre Estados Unidos e China podem ter efeitos significativos sobre a economia brasileira. Especialistas apontam que o agronegócio nacional, especialmente nos segmentos de soja, milho, carne bovina e suína, pode ser beneficiado. Com os produtos norte-americanos enfrentando barreiras na China, abre-se espaço para que fornecedores brasileiros ganhem participação no mercado chinês — uma dinâmica que já foi observada em conflitos comerciais anteriores entre as duas potências.
No entanto, o cenário não é apenas de oportunidades. A intensificação das tarifas pode levar a um excedente de produtos chineses buscando novos mercados, como o Brasil. Isso poderia gerar uma enxurrada de importações com preços mais baixos, aumentando a concorrência para a indústria nacional, especialmente nos setores de eletrônicos, têxteis e automotivo. Além disso, a instabilidade global pode afetar o câmbio e pressionar a inflação no país, dificultando o controle da política monetária pelo Banco Central.
Brasil e a política tarifária com a China
Atualmente, o Brasil aplica tarifas de importação que variam conforme a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), com alíquotas que podem chegar a 35% para determinados produtos industrializados chineses. Além disso, incidem tributos adicionais como o IPI, PIS, Cofins e ICMS, elevando ainda mais o custo de importação.
Nos últimos anos, o Brasil tem buscado equilíbrio entre a necessidade de proteger sua indústria e a demanda crescente por produtos chineses mais acessíveis, especialmente via comércio eletrônico. Em 2024, novas regras para importações por plataformas online passaram a exigir o recolhimento de 20% de Imposto de Importação para compras de até US$ 50, medida que também impacta o comércio com a China.
Perspectivas: novo capítulo na geopolítica econômica
A escalada entre EUA e China marca um novo capítulo na reconfiguração da geopolítica econômica global. A retórica nacionalista e protecionista de ambos os lados indica que o impasse pode se prolongar, com consequências não apenas para os dois países, mas para toda a cadeia de comércio internacional.
O Brasil, como potência emergente e grande exportador de commodities, precisa agir estrategicamente para proteger seus interesses. O momento exige diplomacia ativa, monitoramento constante das cadeias globais e políticas que garantam competitividade interna sem abrir mão das oportunidades externas.
Se, por um lado, a tensão entre as potências pode representar uma janela de oportunidades comerciais, por outro, o risco de instabilidade global é uma realidade que exige cautela e planejamento do governo e do setor produtivo brasileiro.


