
Cientistas recriam lobos com traços do extinto lobo-terrível usando engenharia genética
Por Sandro Felix
Publicado em 08/04/25 às 08:29
Três filhotes de lobo com características surpreendentemente semelhantes às do extinto lobo terrível (dire wolf) estão atualmente sob cuidados sigilosos em uma instalação nos Estados Unidos, segundo anúncio feito nesta segunda-feira (7) pela empresa de biotecnologia Colossal Biosciences. Os animais, que têm entre três e seis meses de idade, já pesam cerca de 36 quilos e podem atingir até 64 quilos na fase adulta — peso similar ao dos antigos predadores pré-históricos que dominaram as Américas há mais de 10 mil anos.
Com pelagem branca, mandíbulas robustas e estrutura corporal imponente, os novos lobos foram criados a partir de engenharia genética utilizando tecnologia CRISPR. A iniciativa é parte dos esforços da Colossal para “reviver” espécies extintas por meio de modificações genéticas em espécies vivas — uma abordagem que também está sendo aplicada em projetos envolvendo mamutes-lanosos e dodôs.

Como foi feita a criação dos lobos “terríveis”
A base do experimento começou com o estudo de fragmentos fósseis de lobos terríveis, incluindo um dente com cerca de 13 mil anos encontrado em Ohio e um fragmento de crânio com 72 mil anos escavado em Idaho. A equipe extraiu e analisou o DNA antigo desses fósseis para identificar traços genéticos exclusivos da espécie.
A partir daí, os cientistas coletaram células sanguíneas de lobos-cinzentos — parentes vivos mais próximos dos lobos terríveis — e realizaram alterações genéticas em 20 pontos diferentes do DNA. O material genético modificado foi então inserido em óvulos de cães domésticos, que serviram como barrigas de aluguel para gerar os embriões. Após 62 dias, nasceram os três filhotes que, segundo os especialistas da Colossal, representam um marco na biotecnologia aplicada à conservação e à ciência evolutiva.
Ressurreição ou simulação?
Apesar do entusiasmo, cientistas independentes alertam que a iniciativa está longe de representar uma verdadeira “ressurreição” da espécie. “No momento, tudo que se pode fazer é criar algo que se pareça superficialmente com outra coisa”, afirmou o biólogo Vincent Lynch, da Universidade de Buffalo. Ele destaca que a função ecológica dos lobos terríveis originais dificilmente poderá ser replicada no ecossistema atual.
Outro ponto levantado é o comportamento. Os novos filhotes, embora possam se parecer com os lobos extintos, não terão como aprender habilidades essenciais de caça que eram passadas de geração em geração entre os animais selvagens. “Eles provavelmente nunca aprenderão o golpe final necessário para derrubar um alce gigante”, comentou Matt James, responsável pelo bem-estar animal da Colossal.
SOUND ON. You’re hearing the first howl of a dire wolf in over 10,000 years. Meet Romulus and Remus—the world’s first de-extinct animals, born on October 1, 2024.
The dire wolf has been extinct for over 10,000 years. These two wolves were brought back from extinction using… pic.twitter.com/wY4rdOVFRH
— Colossal Biosciences® (@colossal) April 7, 2025
Clonagem para conservação: o caso dos lobos vermelhos
Além do avanço envolvendo os “lobos terríveis”, a Colossal também revelou um feito significativo no campo da conservação: a clonagem de quatro lobos vermelhos, espécie criticamente ameaçada encontrada no sudeste dos EUA. Os clones foram criados a partir de sangue coletado de indivíduos selvagens, com o objetivo de ampliar a diversidade genética da população em cativeiro usada em programas de reprodução e reintrodução.
Christopher Preston, especialista em vida selvagem da Universidade de Montana, elogiou a técnica por ser menos invasiva do que outros métodos de clonagem, embora destaque que ainda há desafios logísticos e éticos — como a necessidade de sedar animais selvagens para coleta de sangue.
Apoio oficial e cautela científica
O CEO da Colossal, Ben Lamm, informou que a equipe se reuniu recentemente com autoridades do Departamento do Interior dos EUA para discutir os projetos. A secretária do Interior, Doug Burgum, celebrou a iniciativa nas redes sociais, classificando-a como “uma nova era empolgante de maravilhas científicas”. No entanto, cientistas como Lynch continuam céticos quanto à viabilidade e real impacto ecológico dessas criações.
Seja qual for a função ecológica que o lobo terrível desempenhava antes de ser extinto, ele não conseguirá mais realizá-la nas paisagens atuais, concluiu Lynch.

