
Coincidência entre “The Boys” e publicação de Trump como uma figura messiânica chama atenção do público
Por Sandro Felix
Publicado em 16/04/26 às 13:07
A quinta temporada de The Boys voltou a provocar debate ao aproximar sua sátira política de acontecimentos recentes do mundo real. O terceiro episódio, disponibilizado em 15 de abril de 2026, chamou atenção por retratar uma guinada mais radical do personagem Capitão Pátria, que passa a demonstrar traços messiânicos após uma visão em que se enxerga como uma figura divina.
A repercussão foi imediata nas redes sociais, especialmente pela coincidência com uma publicação recente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Dois dias antes da estreia do episódio, Trump compartilhou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparecia com forte iconografia cristã, o que gerou críticas inclusive entre aliados conservadores.
A semelhança entre ficção e realidade levou parte do público a especular que a produção teria reagido aos acontecimentos políticos em tempo quase real. No entanto, o criador da série, Eric Kripke, negou essa possibilidade. Em entrevista ao site TVLine, ele afirmou que o episódio foi escrito há cerca de dois anos, antes mesmo do atual ciclo político nos Estados Unidos.
Kripke destacou que a coincidência o surpreendeu, mas reforçou que não houve qualquer adaptação de última hora no roteiro. Segundo ele, ao desenvolver a trajetória do Capitão Pátria, havia preocupação de que o tom adotado parecesse exagerado ou caricatural demais. “Às vezes parece que a realidade está ultrapassando a ficção”, indicou o criador, ao comentar o cenário político contemporâneo.

A percepção de que o mundo real tem acompanhado — ou até superado — os exageros da série não é nova. Desde suas primeiras temporadas, “The Boys” constrói o personagem como uma representação extrema de autoritarismo, culto à personalidade e manipulação midiática. Na nova fase, porém, essa lógica é levada a um novo patamar, com elementos de devoção religiosa sendo incorporados à narrativa.
O contexto político recente contribui para intensificar esse paralelo. No mesmo dia da estreia do episódio, reportagens da Reuters destacaram que Trump voltou a publicar conteúdos com simbologia religiosa em sua rede Truth Social. Em uma das imagens, o presidente aparece ao lado de Jesus Cristo; em outra, posteriormente apagada, era retratado com características semelhantes às de uma figura messiânica. As publicações foram criticadas por seu caráter considerado ofensivo e pela apropriação de símbolos religiosos.
Para analistas, a convergência entre a trama da série e o comportamento de figuras públicas não indica necessariamente uma previsão específica, mas sim a capacidade da produção de captar tendências mais amplas do imaginário político atual. A ideia de líderes que buscam não apenas apoio, mas devoção, tem sido discutida em diferentes contextos, especialmente em cenários marcados por polarização.
Nesse sentido, o arco narrativo do Capitão Pátria pode ser interpretado como uma amplificação dramática de fenômenos já observados na vida real. A busca por adoração irrestrita, aliada ao desejo de poder absoluto, encontra eco em estratégias políticas que exploram emoções, símbolos e crenças.
A coincidência entre o episódio e os acontecimentos recentes reforça a relevância da série como comentário social. Ainda que não tenha sido planejada como resposta direta, a narrativa acaba dialogando com o presente de forma quase inevitável, evidenciando a linha tênue entre sátira e realidade.
