
Brasil observa, potências se armam: tensão militar global cresce após ofensiva dos EUA na Venezuela
Por Sandro Felix
Publicado em 08/01/26 às 16:16
A operação militar conduzida pelos Estados Unidos que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, provocou reações contundentes no cenário internacional e reacendeu discussões sobre equilíbrio estratégico, soberania nacional e capacidades de defesa, inclusive no Brasil.
Maduro foi detido em Caracas por forças americanas no início de janeiro em uma ação classificada pelo governo dos EUA como um esforço para combater o narcotráfico transnacional. A missão, batizada de Operation Absolute Resolve, envolveu o uso de aeronaves de transporte militar, drones e apoio de guerra eletrônica, demonstrando a capacidade logística e tecnológica de Washington.
A iniciativa gerou críticas por parte de governos como Rússia, China, Irã e Brasil, que questionaram a legalidade da intervenção e alertaram para o risco de instabilidade regional. O Itamaraty afirmou, em nota, que “ações unilaterais desse tipo, sem aval multilateral, ameaçam a paz e a ordem constitucional da América do Sul”.
Capacidades militares em foco
O episódio gerou movimentações diplomáticas e militares entre as principais potências, trazendo à tona comparações sobre o atual cenário de forças armadas globais.
Com o maior orçamento de defesa do mundo, os Estados Unidos seguem à frente em capacidade militar convencional, com presença permanente em diversas regiões e acesso a uma frota naval que inclui 11 porta-aviões ativos.
A Rússia, por sua vez, mantém sua estratégia de dissuasão por meio de seu arsenal nuclear — estimado em cerca de 6 mil ogivas — e capacidade de mobilização regional. A China, que tem ampliado seus investimentos em defesa, concentra esforços em consolidar sua marinha e expandir sua influência no Indo-Pacífico, ao mesmo tempo em que mantém cerca de 350 ogivas nucleares operacionais, segundo estimativas do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).
Outros países, como França, Reino Unido, Índia e Coreia do Sul, também têm reforçado seus programas de defesa frente à nova ordem geopolítica.
Brasil e o debate sobre capacidade nuclear
No Brasil, o impacto geopolítico da operação dos EUA sobre a Venezuela provocou reações no Congresso e entre setores ligados à defesa. Embora o país seja signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e da Zona Livre de Armas Nucleares da América Latina e Caribe (Tratado de Tlatelolco), parlamentares da ala conservadora e militar voltaram a defender uma revisão do posicionamento brasileiro sobre a renúncia à dissuasão nuclear.
O debate, contudo, ainda é restrito e sem apoio majoritário. O governo federal reafirmou seu compromisso com o uso pacífico da energia nuclear e descartou qualquer iniciativa nesse sentido.
Vários especialistas consideram improvável uma mudança de postura. “O Brasil não possui interesse estratégico, nem condições técnicas ou políticas para desenvolver uma arma nuclear no curto prazo. Isso exigiria uma ruptura institucional e diplomática que o país não está disposto a enfrentar”, afirma o professor Lucas Maia, da UFRJ.
Atualmente, o programa nuclear brasileiro se concentra na produção de energia e no desenvolvimento de um submarino de propulsão nuclear, com acompanhamento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Cenário de incertezas
Com a escalada das tensões e o aumento da polarização entre grandes potências, analistas observam com cautela os próximos desdobramentos. A operação norte-americana marca um novo capítulo na política externa dos EUA e testa os limites da ordem internacional vigente.
O Conselho de Segurança da ONU convocou uma reunião extraordinária para discutir a legalidade da ação. Enquanto isso, países da América Latina manifestam preocupação com possíveis impactos sobre a estabilidade regional e reforçam pedidos por soluções diplomáticas.
A captura de Maduro, ainda que vista por alguns como o fim de um regime autoritário, traz implicações profundas para o equilíbrio militar global — e recoloca em pauta o debate sobre soberania, alianças e segurança no século XXI.



