Cuba será a próxima vítima após a captura de Maduro?
Por Sandro Felix
Publicado em 04/01/26 às 08:10
A captura de Nicolás Maduro, até então no comando do regime venezuelano, provocou um efeito dominó que vai muito além das fronteiras de Caracas. O episódio acelera o desmonte de estruturas políticas, militares e criminais associadas ao chavismo e tem impacto imediato e profundo em Cuba, principal aliada regional da Venezuela nas últimas duas décadas.
A presença cubana em território venezuelano era extensa. Segundo estimativas de especialistas e de ex-integrantes do governo de Caracas, entre 5.000 e 15.000 agentes cubanos atuavam diretamente em áreas de inteligência, contrainteligência e segurança. Eles teriam desempenhado papel central tanto no treinamento das Forças Armadas venezuelanas quanto na repressão a opositores durante os governos de Hugo Chávez e Maduro. Nos últimos dias, relatos locais indicam que moradores passaram a identificar residências ocupadas por esses agentes estrangeiros.
Maduro foi capturado em uma residência secreta dentro do complexo militar de Fuerte Tiuna, que abriga o Ministério da Defesa e o comando do Exército venezuelano. A operação ocorreu sob forte resistência armada. O local era protegido por forças mistas, incluindo cubanos, e houve troca de tiros durante a ação. Helicópteros militares dos Estados Unidos sobrevoaram a área; um deles chegou a ser atingido, mas manteve a operação. Ainda não há números oficiais sobre mortos ou feridos.
Além da atuação na área de segurança, milhares de cubanos trabalhavam como médicos e profissionais de saúde na Venezuela. Esse contingente, assim como o aparato de segurança, funcionava como moeda de troca pelo envio de petróleo venezuelano à ilha — combustível vital para a sobrevivência econômica de Cuba.
Com a queda do regime em Caracas, esse fluxo praticamente cessou. Cuba necessita de cerca de 110 mil a 120 mil barris de petróleo por dia para atender suas necessidades básicas, mas vinha recebendo volumes muito inferiores. Nos primeiros dez meses do último ano, a média foi de apenas 27,4 mil barris diários, número que agora se aproxima de zero.
O impacto é visível. A ilha enfrenta apagões prolongados, escassez de bens essenciais e crescimento das manifestações populares. O país depende quase totalmente do petróleo importado, e suas reservas financeiras são insuficientes para comprar combustível no mercado internacional à vista. A produção doméstica existe, mas o petróleo é pesado demais para as refinarias locais.
O México surgiu como fornecedor secundário em 2023 e 2024, com remessas irregulares. Em 2024, enviou cerca de 20 mil barris por dia e, em um esforço descrito como “solidário”, chegou a subsidiar mais de US$ 3 bilhões em combustível entre maio e agosto de 2025. No entanto, com dificuldades internas, os embarques caíram drasticamente no fim do ano. Em dezembro, houve apenas um envio emergencial para evitar o colapso total da rede elétrica cubana durante as festas.
Analistas avaliam que o apoio mexicano dificilmente será retomado em larga escala, sobretudo diante da possibilidade de ampliação do embargo dos Estados Unidos para atingir o petróleo mexicano destinado à ilha. Além disso, o custo médio do barril mexicano — cerca de US$ 54,90 — tornava a operação economicamente insustentável para a Cidade do México.
A Rússia, por sua vez, envia volumes mínimos de petróleo a Cuba e enfrenta limitações impostas por sanções ocidentais. Já a China, embora mantenha relações diplomáticas estreitas, não sinalizou disposição para substituir a Venezuela como fiadora energética do regime cubano.
No plano militar, a operação que resultou na captura de Maduro, batizada de “Operation Absolute Resolve”, incluiu ataques a sistemas de defesa aérea venezuelanos. Foram destruídos equipamentos como o Buk-M2E no aeroporto de La Carlota e, segundo relatos de fontes russas, possivelmente um sistema S-300VM. As mesmas fontes apontam falhas operacionais e falta de manutenção — um cenário que, segundo analistas, pode se repetir em Cuba.
Também houve ações contra alvos ligados a grupos armados. De acordo com o presidente colombiano Gustavo Petro, forças americanas atingiram uma instalação próxima a Maracaibo, associada ao Exército de Libertação Nacional (ELN) e à montagem de drones de origem iraniana. A região abrigava ainda estruturas operadas pelo Hezbollah, incluindo centros de treinamento, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro, com destaque para uma base estratégica na ilha de Margarita.
Em Havana, o presidente Miguel Díaz-Canel apelou por unidade nacional e lealdade ao Partido Comunista no início do ano. O discurso, porém, contrasta com a realidade descrita por organizações de direitos humanos: falta de alimentos e medicamentos, repressão violenta a dissidentes, surtos de doenças transmitidas por mosquitos e uma sequência quase contínua de protestos desde julho de 2021, com recordes registrados ao longo de 2025.
A queda do regime venezuelano e o isolamento crescente de Cuba ocorrem em um momento de mudança no cenário político do hemisfério, com avanço de governos conservadores e alinhados aos Estados Unidos. Para analistas, a combinação de colapso econômico, crise energética e pressão social reduz drasticamente as chances de sobrevivência do regime comunista cubano nos moldes atuais.
Nem mesmo gestos de apoio de potências como Rússia e China parecem suficientes. No dia em que foi capturado, Maduro se reuniu em Caracas com uma delegação chinesa liderada por Qiu Xiaoqi, emissário do presidente Xi Jinping para a América Latina. O encontro não impediu o desfecho. Para observadores, o episódio reforça a percepção de que alianças internacionais têm limites quando a base econômica e social de um regime entra em colapso.
Com Caracas fora de cena, Havana enfrenta agora sua maior encruzilhada em décadas. A pergunta que ecoa entre diplomatas e analistas é direta: depois da Venezuela, Cuba será a próxima a mudar de regime?