Estudo aponta que 1 em cada 5 vídeos recomendados pelo YouTube é gerado por IA de baixa qualidade

Estudo aponta que 1 em cada 5 vídeos recomendados pelo YouTube é gerado por IA de baixa qualidade

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Publicado em 28/12/25 às 06:43

Uma ofensiva anunciada pelo YouTube contra vídeos produzidos em massa com inteligência artificial e considerados de baixa qualidade parece não estar surtindo o efeito esperado. Um novo estudo aponta que o próprio algoritmo de recomendação da plataforma continua sugerindo esse tipo de conteúdo — conhecido como AI slop — a usuários recém-chegados.

De acordo com um relatório divulgado pela Kapwing, mais de 20% dos vídeos recomendados a novos usuários do YouTube se enquadram nessa categoria. A empresa analisou cerca de 15 mil dos canais mais populares do mundo para identificar quais produzem AI slop e estimar o volume de visualizações e receitas geradas por esse material.

O levantamento identificou 278 canais que publicaram exclusivamente vídeos classificados como AI slop. Juntos, eles acumulam aproximadamente 63 bilhões de visualizações e 221 milhões de inscritos. O canal mais assistido dentro desse grupo é o “Bandar Apna Dost”, sediado na Índia, que ultrapassa 2,4 bilhões de visualizações. Os vídeos apresentam personagens gerados por IA, como um macaco-rhesus antropomorfizado e uma figura musculosa semelhante ao Hulk, retratados em lutas contra demônios.

Embora esse tipo de conteúdo não seja elegível para monetização direta segundo as políticas atuais do YouTube, a Kapwing estima que esses canais possam gerar, de forma indireta, cerca de US$ 117 milhões por ano. Somente o “Bandar Apna Dost” teria um faturamento anual estimado em US$ 4,25 milhões.

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Para testar o funcionamento do algoritmo, os pesquisadores criaram uma nova conta na plataforma e analisaram as primeiras 500 recomendações exibidas. Desse total, 104 vídeos foram classificados como AI slop, enquanto cerca de um terço se encaixava na categoria chamada de brain rot — conteúdos repetitivos, de apelo sensacionalista e pouco valor informativo.

Segundo o relatório, o fenômeno revela um setor em rápida expansão e ainda pouco estruturado, que se aproveita de ferramentas generativas para maximizar engajamento. Há também um mercado paralelo de cursos e “mentorias”, muitas vezes oferecidos por golpistas, que prometem ensinar como criar vídeos virais gerados por IA.

AI slop

A preocupação com o AI slop cresce em meio à abundância de conteúdos autênticos e inautênticos nas redes sociais. Diferentemente de outras formas de spam, esse material pode ser produzido em larga escala com ferramentas gratuitas ou de baixo custo, ampliando sua disseminação. Usuários de plataformas como Instagram, X e o próprio YouTube têm reclamado com frequência da saturação de seus feeds.

Em resposta, empresas de tecnologia anunciaram medidas para conter a proliferação desse conteúdo, incluindo políticas mais rígidas e remoções pontuais. No início do mês, o YouTube bloqueou dois grandes canais que divulgavam trailers falsos de filmes gerados por IA. Ao mesmo tempo, porém, as big techs veem a inteligência artificial como parte central do futuro das redes sociais.

Durante uma teleconferência de resultados em outubro, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou que a empresa pretende adicionar “um enorme novo corpus de conteúdo” aos sistemas de recomendação, já que a IA facilita a criação e a remixagem de materiais compartilháveis. O YouTube, por sua vez, integrou o Veo 3 — gerador de vídeos por IA do Google — ao Shorts, permitindo a criação de vídeos verticais diretamente na plataforma.

Em comentário ao estudo da Kapwing, um porta-voz do YouTube afirmou ao The Guardian que “a IA generativa é uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, pode ser usada para produzir conteúdo de alta ou baixa qualidade”. Segundo a empresa, o foco permanece em conectar usuários a conteúdos de qualidade, independentemente de como foram produzidos, e todo material deve obedecer às diretrizes da comunidade.

AI slop

O termo AI slop ganhou força recentemente. Diante da explosão de conteúdos gerados por inteligência artificial, a Merriam-Webster anunciou “slop” como a palavra do ano de 2025, definindo-a como “conteúdo digital de baixa qualidade, geralmente produzido em grande quantidade por meio de inteligência artificial”. Em declaração à Associated Press, o presidente da editora, Greg Barlow, afirmou que a palavra reflete bem uma tecnologia transformadora que desperta fascínio, incômodo e até ridículo.

Outros dicionários também destacaram termos ligados ao ambiente digital. O Oxford Dictionary escolheu “ragebait”, expressão usada para descrever conteúdos criados para provocar indignação e gerar engajamento. Já o Collins Dictionary elegeu “vibe coding”, termo cunhado pelo pesquisador Andrej Karpathy para definir o uso de IA, a partir de linguagem natural, na escrita de código de programação.

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