
Startup lança aplicativo que recria falecidos e reacende debate ético sobre a “vida digital após a morte”
Por Sandro Felix
Publicado em 14/11/25 às 16:15
A startup 2Wai, sediada em Los Angeles, colocou no centro do debate tecnológico um tema que, até pouco tempo, parecia restrito à ficção científica: a possibilidade de conversar com pessoas já falecidas. A empresa lançou na App Store um aplicativo capaz de criar “HoloAvatares”, versões digitais que imitam rosto, voz e até parte da memória de quem já morreu.
O serviço funciona por meio da combinação de captura facial com modelos avançados de linguagem. Para gerar o avatar, o usuário grava vídeos e áudios, envia fotos e descreve quais informações o holograma deve “saber”. A partir disso, o sistema constrói um duplo digital capaz de manter conversas fluidas, com expressões e voz sintetizadas.
O vídeo promocional da startup — que ultrapassou quatro milhões de visualizações — mostra uma família interagindo com a versão digital da avó ao longo de vários anos: da gestação de uma filha até o momento em que o neto anuncia que ela se tornará bisavó. O slogan da empresa, “com 2Wai, três minutos podem durar para sempre”, resume a ambição declarada: criar um “arquivo vivente da humanidade” e prolongar laços com quem já partiu.
What if the loved ones we’ve lost could be part of our future? pic.twitter.com/oFBGekVo1R
— Calum Worthy (@CalumWorthy) November 11, 2025
Embora a plataforma tenha nascido com outro propósito — permitir que influenciadores e marcas controlem seus próprios “gêmeos de IA” —, a guinada ao universo do luto despertou forte reação. O site Axios já havia resumido a proposta original: “se vão fazer deepfake de você, é melhor ter o seu oficial”. Agora, as críticas se concentram no impacto psicológico de transformar a morte em um problema de experiência de usuário resolvido com assinatura mensal.
Reações negativas e comparações com Black Mirror
Nas redes sociais, a repercussão tem sido majoritariamente de repúdio. Usuários classificaram o aplicativo como “perverso”, “repugnante” e “combustível para pesadelos”. A comparação com o episódio “Be Right Back”, da série Black Mirror, aparece em praticamente todos os debates: naquela história, uma jovem recria digitalmente o namorado morto a partir de mensagens e posts, chegando ao extremo de conviver com um androide que nunca chega a ser verdadeiramente ele.
A diferença é que o enredo deixou de soar como uma distopia distante. Antes mesmo da 2Wai, serviços como HereAfter, Project December e plataformas chinesas ligadas ao setor funerário já permitiam conversar com “bots do além”, criados a partir de registros pessoais do falecido. O fenômeno ganhou até um nome no documentário Eternal You, exibido pela Sundance, que descreve o crescente mercado do “afterlife digital”.
Impactos no luto e riscos clínicos
Pesquisadores da área de psicologia do luto ressaltam que manter um vínculo simbólico com quem morreu não é, por si só, um comportamento patológico. A teoria dos continuing bonds explica que preservar objetos, rituais ou conversas internas pode ajudar na integração da perda. Estudos recentes apontam que esse tipo de laço pode ser reconfortante, desde que não substitua a aceitação da morte.
O risco surge quando a tecnologia torna a presença do ausente tão vívida que dificulta esse processo. Em um cenário no qual o transtorno de luto prolongado já está reconhecido pelo DSM-5-TR e pelo ICD-11 — afetando entre 4% e 7% das pessoas enlutadas, segundo diferentes estudos —, especialistas temem que ferramentas como a da 2Wai ampliem a vulnerabilidade emocional de determinados usuários.
Questões éticas e legais ganham urgência
O avanço da chamada GriefTech, que monetiza a dor oferecendo avatares de pessoas mortas, também levanta preocupações éticas e de privacidade. Pesquisadores da Universidade de Cambridge já alertam para a possibilidade de “assombrações indesejadas”: chatbots que simulam alguém falecido sem seu consentimento prévio ou sem a concordância de todos os familiares.
As perguntas se acumulam: Quem pode autorizar a criação de um HoloAvatar? Qualquer parente que tenha fotos e áudios? Apenas a própria pessoa, caso tenha deixado instruções em vida? E como agir quando um menor de idade passa a estabelecer seu principal vínculo emocional com a versão digital de um avô ou avó, em vez de com pessoas reais?
Além disso, há preocupações sobre o armazenamento e o uso dos dados, já que o aplicativo lida com conteúdo extremamente íntimo — conversas pessoais, vídeos familiares e registros de voz que podem revelar traços profundos da vida privada.
Um mercado em expansão
Enquanto as dúvidas se multiplicam, o setor continua a crescer. Reportagem recente da Nature identificou um cenário em que diversas plataformas oferecem, por poucos dólares, a possibilidade de trocar dezenas de mensagens com uma réplica digital de alguém que morreu. A revista Forbes, por sua vez, aponta para um verdadeiro “boom do além com IA”, que transforma o luto em nicho comercial.
Para especialistas, a discussão já não é sobre se essas tecnologias devem existir, mas sobre como regulá-las antes que ultrapassem limites emocionais e legais. Entre o fascínio e o desconforto, a “vida digital após a morte” — antes imaginação futurista — agora se apresenta como um desafio real para a sociedade, a ciência e o próprio conceito de despedida.

