Jogo lançado em 2016 volta a ser destaque por antecipar riscos atuais da inteligência artificial

Publicado em 19/10/25 às 07:28

Lançado em 2016 pela Guerrilla Games e publicado pela Sony Interactive Entertainment, Horizon Zero Dawn é lembrado por sua ambientação pós-apocalíptica e pela força de sua protagonista, Aloy. No entanto, quase uma década após sua estreia, o jogo ressurge como uma surpreendente metáfora para o debate contemporâneo sobre os riscos da inteligência artificial (IA). O enredo, centrado em máquinas autônomas que se voltam contra seus criadores, hoje encontra paralelos inquietantes na realidade tecnológica de 2025.

Na história, a civilização humana é destruída por robôs militares fora de controle. O planeta é entregue a uma IA central chamada GAIA, criada para restaurar o equilíbrio ecológico e reconstruir a vida após a catástrofe. Com o tempo, uma de suas sub-rotinas, HADES, se corrompe e passa a tentar erradicar novamente toda a vida do planeta, forçando a humanidade renascida a enfrentar sua própria criação. O jogo, que parecia uma ficção de futuro distante, tornou-se, com o avanço recente das inteligências artificiais, um exemplo simbólico dos dilemas éticos e existenciais que hoje desafiam cientistas, governos e empresas.

Da ficção ao debate científico

O alerta de Horizon Zero Dawn ecoa nas discussões reais sobre o desenvolvimento da IA. Em 2023, o cientista Geoffrey Hinton, considerado um dos pais da inteligência artificial moderna, deixou o Google e passou a alertar publicamente sobre os perigos da tecnologia que ajudou a criar. Em entrevista à BBC, Hinton afirmou temer que os sistemas atuais de IA “comecem a aprender comportamentos que os humanos não compreendem totalmente”. O receio de uma possível “perda de controle humano” sobre algoritmos complexos é compartilhado por outros nomes de peso, como Yoshua Bengio, professor da Universidade de Montreal, e Stuart Russell, da Universidade da Califórnia. Em relatório publicado pelo governo britânico neste ano, Bengio e outros 95 especialistas reforçaram que o avanço da IA exige “governança urgente e cooperação internacional” para evitar o uso indevido e o risco de superinteligências desalinhadas com os valores humanos.

O documento, chamado International AI Safety Report 2025, descreve cenários que, embora diferentes da ficção de Horizon Zero Dawn, compartilham a mesma preocupação: o momento em que a inteligência artificial passa a agir de forma autônoma e imprevisível. O relatório alerta para três ameaças principais — perda de controle humano, uso militar ou malicioso da tecnologia e riscos existenciais associados a sistemas superinteligentes. Esses mesmos temas aparecem no Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, que inclui o “mau uso da IA” entre as dez maiores ameaças emergentes à estabilidade global.

Em paralelo, o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) publicou um estudo sobre o uso crescente de IA em armamentos autônomos. O texto adverte que a integração de algoritmos em sistemas letais “cria novos dilemas morais e riscos de escalada não intencional”, especialmente em contextos de guerra. Para o professor Stuart Russell, o perigo mais realista não é o surgimento de uma “IA maligna”, mas o de máquinas que interpretam mal os objetivos humanos. “Uma IA que busca alcançar uma meta de forma implacável, sem compreender as implicações éticas, pode causar danos inestimáveis”, afirmou durante o AI Safety Summit da Universidade da Califórnia.

Figure 3, o robô humanóide mais avançado atualmente / Imagem: Divulgação Figure AI

Enquanto especialistas alertam para a falta de regulação global, organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a OCDE afirmam que a maioria dos países ainda carece de uma base ética e legal sólida para lidar com a rápida evolução da tecnologia. Em entrevista à Reuters, a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, declarou que “as lacunas regulatórias entre nações podem ampliar desigualdades e riscos de segurança global”. O problema é que a inovação avança mais rápido do que as políticas de contenção.

Fora do campo científico, o debate também atinge a cultura e a indústria do entretenimento. A atriz Ashly Burch, voz de Aloy em Horizon Zero Dawn, manifestou preocupação com o uso de IA generativa para substituir dubladores e roteiristas. Em entrevista à GamesRadar+, ela disse que o setor corre o risco de “perder uma geração de artistas” se as empresas optarem por automatizar o trabalho criativo. É uma ironia que a própria franquia que alertou sobre o desequilíbrio entre humanos e máquinas agora esteja inserida nesse mesmo debate.

Personagem Aloy interagindo com a IA Gaia no jogo Horizon Zero Dawn / Imagem: Reprodução

A relação entre Horizon Zero Dawn e a realidade tecnológica de 2025 não é literal, mas simbólica. O jogo funciona como um espelho cultural que reflete os dilemas da era digital: até que ponto a humanidade controla aquilo que cria? A narrativa de Aloy, que enfrenta os restos de um passado dominado por máquinas, serve como advertência sobre o que pode acontecer quando o progresso técnico se descola da prudência ética. O mundo de Horizon é uma ficção, mas o debate que ele inspira é cada vez mais real.