
Novo modelo de IA do Google prevê novos medicamentos com potencial para combater tumores cancerígenos
Por Sandro Felix
Publicado em 17/10/25 às 16:36
A divisão DeepMind, do Google, anunciou um importante avanço científico ao lançar um novo modelo de inteligência artificial (IA) capaz de gerar hipóteses inéditas sobre o comportamento celular do câncer — e vê-las confirmadas experimentalmente em células humanas. O modelo, batizado de C2S-Scale 27B, foi desenvolvido em colaboração com a Universidade de Yale e possui 27 bilhões de parâmetros, sendo baseado nos modelos abertos Gemma.
De acordo com o Google, o C2S-Scale 27B foi “projetado para entender a linguagem das células individuais”. A empresa afirma que a tecnologia marca “um marco para a IA na ciência”, ao permitir que cientistas compreendam, de forma sem precedentes, como as células cancerígenas interagem com o sistema imunológico.
Em um experimento conduzido em laboratório, o modelo foi capaz de prever novos medicamentos com potencial para combater tumores, a partir da análise do comportamento celular do câncer. Essas previsões foram testadas com sucesso por pesquisadores em células humanas, abrindo caminho para o desenvolvimento de novas terapias contra o câncer.
Um novo tipo de inteligência artificial científica
O avanço do C2S-Scale 27B se apoia em estudos anteriores do Google, que já indicavam que grandes modelos de IA apresentam níveis mais sofisticados de raciocínio condicional — a capacidade de entender e prever comportamentos biológicos complexos com base em múltiplas condições simultâneas.
No contexto do câncer, um dos grandes desafios da imunoterapia é o fato de que muitos tumores permanecem invisíveis ao sistema imunológico, escapando da detecção e destruição natural do organismo. Uma estratégia promissora para reverter essa situação é induzir os tumores a exibir “sinais de ativação imune”, em um processo conhecido como apresentação de antígenos.
Foi exatamente esse o objetivo proposto ao novo modelo de IA: encontrar um fármaco capaz de atuar como amplificador condicional, ou seja, que ajudasse as células imunes do corpo a reconhecer tumores sob determinadas condições.
Para atingir esse resultado, os pesquisadores usaram uma abordagem chamada “tela virtual de duplo contexto”, em que o modelo analisou mais de 4.000 medicamentos aplicados a diversos tipos de amostras tumorais e dados de células isoladas.
A simulação em larga escala permitiu que o C2S-Scale 27B identificasse compostos capazes de potencializar a ativação imune em contextos específicos. Embora alguns dos medicamentos analisados já fossem conhecidos por atuar sobre células cancerígenas, o modelo descobriu novos compostos que nunca haviam sido relacionados à imunoterapia contra o câncer.
Os achados foram então levados ao laboratório e testados em modelos de células neuroendócrinas humanas — um tipo celular que não havia sido incluído no treinamento do modelo. Entre os compostos testados, um em especial se destacou: o CX-4945, cuja ação foi prevista pelo modelo como capaz de aumentar em cerca de 50% a apresentação de antígenos.
Essa confirmação experimental demonstrou que o modelo de IA não apenas processou dados biológicos, mas raciocinou sobre as condições celulares e deduziu como elas poderiam influenciar o sucesso de um tratamento.
O futuro da pesquisa biomédica com IA
O Google afirma que a descoberta simboliza uma mudança de paradigma na pesquisa biomédica. Em vez de depender exclusivamente de métodos de tentativa e erro, cientistas agora podem testar e validar hipóteses em “laboratórios virtuais”, reduzindo o tempo e o custo necessários para o desenvolvimento de novos medicamentos.
O C2S-Scale 27B representa um avanço na capacidade da IA de compreender sistemas biológicos complexos, oferecendo uma nova lente para investigar doenças e acelerar a descoberta de terapias.
Embora o modelo ainda esteja em fase experimental, o impacto potencial da tecnologia é significativo. Especialistas acreditam que a abordagem pode se estender para além do câncer, ajudando a compreender outras doenças crônicas e autoimunes.
Para o Google e para a comunidade científica, o anúncio simboliza um marco no uso da inteligência artificial para a medicina de precisão, aproximando o futuro em que modelos de IA não apenas interpretam dados, mas geram conhecimento científico original.
Estamos vendo o início de uma nova era da pesquisa biomédica orientada por IA, onde a máquina não substitui o cientista, mas amplia a capacidade humana de descobrir o que antes era invisível, afirmou o Google em comunicado oficial.

