
Pesquisadores da University of California transformam mouse em “microfone espião” com técnica inovadora
Por Sandro Felix
Publicado em 10/10/25 às 16:34
Pesquisadores da University of California apresentaram um método capaz de transformar mouses comuns em microfones improvisados capazes de captar e, em parte, decifrar conversas próximas ao equipamento. Batizado de Mic-E-Mouse, o procedimento explora a elevada sensibilidade dos sensores óticos e de movimento presentes em muitos periféricos — que, segundo os autores do estudo, são capazes de detectar vibrações acústicas mínimas — e as utiliza para emular um dispositivo de escuta.
De acordo com a equipe, o ataque começa com a infecção do sistema alvo; apenas após obter acesso ao computador o atacante pode coletar os sinais medidos pelo mouse. Os dados brutos de vibração passam por um processo de filtragem (os pesquisadores citam o uso de um filtro de Wiener para redução de ruído) e, em seguida, são encaminhados a um sistema de inteligência artificial treinado para reconhecer palavras. Em testes descritos no estudo, a transcrição de voz alcançou aproximadamente 61% de acurácia dependendo da frequência vocal. Enquanto palavras em geral mostraram maior dificuldade para serem recuperadas, números foram identificados com facilidade — o que, segundo os autores, potencialmente facilita o roubo de dados sensíveis como números de cartão de crédito.
Os autores também destacam por que esse vetor de ataque pode ser atrativo para agentes maliciosos: periféricos como mouses e teclados costumam receber menos atenção das soluções de segurança, o que facilita a extração e o envio de informações sem levantar suspeitas. A equipe disponibilizou ainda um vídeo demonstrativo mostrando o funcionamento da técnica.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam limitações importantes que restringem a viabilidade prática do Mic-E-Mouse. Entre as condições necessárias estão a posição do mouse sobre uma superfície plana e desobstruída — o uso de tapetes para mouse ou capas de mesa reduz drasticamente a capacidade de captação — e níveis baixos de ruído ambiental; ambientes barulhentos dificultam a recuperação das vibrações acústicas. Além disso, a execução do ataque depende do comprometimento prévio do computador, o que já impõe uma barreira operacional.
O estudo, segundo seus autores, não tem a intenção de servir como roteiro para ataques, mas sim chamar atenção para um ponto vulnerável frequentemente ignorado na segurança de TI: dispositivos periféricos de aparência inofensiva podem, em circunstâncias específicas, ser transformados em ferramentas de espionagem. Especialistas em segurança consultados pelo jornal consideram a pesquisa relevante por expor esse risco e recomendam práticas básicas de proteção, como manter sistemas atualizados, utilizar soluções de segurança confiáveis e adotar políticas de controle de periféricos em ambientes corporativos.
