
Conheça o FaceAge, a ferramenta de IA que avalia sua saúde a partir de uma foto
Por Sandro Felix
Publicado em 16/05/25 às 16:46
Uma nova ferramenta de inteligência artificial desenvolvida por pesquisadores da Mass General Brigham promete auxiliar médicos a obter uma visão mais precisa da saúde dos pacientes por meio da análise de seus rostos. Batizada de FaceAge, a tecnologia busca replicar o chamado “teste do olhar” — uma avaliação rápida realizada por médicos ao observar a aparência geral do paciente.
A pesquisa foi publicada no dia 8 de maio de 2025 na revista científica Lancet Digital Health. O estudo descreve o funcionamento do sistema, que utiliza algoritmos de aprendizado profundo para estimar a idade biológica de uma pessoa a partir de uma selfie. Diferente da idade cronológica, a idade biológica pode indicar com mais precisão o estado geral de saúde de um indivíduo.
Segundo os pesquisadores, essa distinção pode impactar diretamente as decisões clínicas. “Alguns médicos hesitam em tratar pacientes com câncer em idade avançada por acharem que outros fatores podem causar o óbito antes que a doença evolua. Mas essa decisão pode mudar se o paciente parecer biologicamente mais jovem”, explicou o oncologista Dr. Raymond Mak, um dos autores do estudo.
Durante uma coletiva de imprensa, Dr. Mak relatou o caso de um paciente com câncer de pulmão em estágio terminal. Aos 86 anos, o paciente parecia mais jovem e, após avaliação, foi submetido a tratamento agressivo com radioterapia. Anos depois, usando o FaceAge, constatou-se que sua idade biológica era mais de 10 anos inferior à cronológica. O paciente está hoje com 90 anos e continua com boa saúde.
Como funciona o FaceAge?
A base de treinamento da ferramenta inclui 9.000 fotos de indivíduos com 60 anos ou mais, presumivelmente saudáveis. A maioria dessas imagens foi obtida de fontes públicas, como a Wikipedia e o IMDb, além do banco de dados UTKFace, que contém rostos de pessoas com idades entre 1 e 116 anos.
De acordo com Hugo Aerts, diretor do programa de Inteligência Artificial em Medicina da Mass General Brigham, o algoritmo interpreta características faciais de forma distinta dos humanos.
Fatores como calvície ou cabelos grisalhos têm menos relevância do que imaginávamos inicialmente, afirmou.
Precisão e limitações
O FaceAge foi testado em fotos de mais de 6.200 pacientes com câncer antes de iniciarem radioterapia. Em média, a ferramenta estimou uma idade biológica cinco anos superior à idade real desses pacientes. Essa avaliação teve relação direta com a expectativa de vida estimada.
Em um experimento, oito médicos tentaram prever a sobrevida de pacientes com câncer terminal usando apenas fotos. Acertaram em 61% dos casos. Com informações clínicas adicionais, a taxa subiu para 73%. Combinando dados clínicos e a análise do FaceAge, a precisão chegou a 80%.
Contudo, os pesquisadores alertam que a ferramenta não substitui a análise médica, servindo apenas como apoio para decisões clínicas.
Segurança e privacidade
A equipe responsável pelo FaceAge destaca que a ferramenta ainda não está pronta para uso clínico. Preocupações com privacidade e viés algorítmico ainda precisam ser resolvidas. Embora o sistema não tenha sido treinado com fotos de pacientes reais nem dados clínicos sensíveis, questões sobre o uso de imagens faciais continuam sendo relevantes.
Para mitigar possíveis viés étnico ou racial, os pesquisadores utilizaram o banco UTKFace, que inclui cerca de 55% de indivíduos não brancos. A ferramenta também foi ajustada para considerar a etnia nas análises multivariadas feitas com os dados clínicos de Harvard.
Mesmo assim, os desenvolvedores reforçam que o uso futuro do FaceAge exigirá forte supervisão regulatória.
Essa tecnologia pode fazer muito bem, mas também pode causar danos se não for usada com responsabilidade, concluiu Hugo Aerts.

